Avatar de Desconhecido

O que precisa ser

Havia um rio entre a tua dor e a minha visão,
E eu julgava conhecer o que não podia ver;
Faltava à ponte a firmeza da comunicação,
Faltava coragem para tudo esclarecer.

Eu via apenas a margem, não a profundidade,
Você guardava correntes difíceis de revelar;
E, entre silêncio, ruído e vulnerabilidade,
Perdíamos caminhos que só o diálogo podia mostrar.

Mas quando a verdade encontrou voz para nascer,
E a escuta trocou o julgamento pela atenção,
Descobri que amar é primeiro tentar entender,
Antes de procurar respostas ou explicação.

Nenhuma alma se revela sem a coragem de dizer,
Nem existe amor sem compreensão.

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À margem

Passei anos oferecendo lugares à mesa.

Guardando cadeiras.

Acendendo luzes.

Abrindo janelas e portas.

Achava que era assim que se dizia:

“fico feliz quando estás aqui.”

Mas as palavras nem sempre chegam ao destino que imaginamos.

O mesmo gesto

atravessa o rio

e pode desembarcar com outro nome.

Só então compreendi

que não foi a minha oferta que mudou:

Foi a margem.

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Aos borbotões

Bem sabes

Que meus versos são teus

Assim como sabes

Que teus desejos são meus.

As palavras –

E nem só as palavras –

Jorram aos borbotões.

Poemas eu escrevo

Quando tu me afogas

Em teus desejos:

És-me pura fascinação.

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Anti-horário

O vento

Que lambe tua face

Sussurra em teus ouvidos

Palavras malditas

Que tu querias engolir.

.

Tua garganta seca

Tua mão molha

E em sentido anti-horário

Avançam do alto de Vênus

Os dedilhados do teu tormento.

.

Agita a tua batuta

Orquestra o teu ritmo –

Crescendo, crescendo! –

Enquanto teu rubor prepara

Um apoteótico encerramento.

.

Palavras malditas

Repetidas, sentidas

Não é o vento culpado

São teus ouvidos apurados

Revivendo mil momentos.

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Palavras

Engasgou-se com palavras:
Tanto com as que disse
Como com as que não disse.

Silenciou-se quando deveria falar,
Falou quando deveria silenciar.

Palavra é ponte
Palavra é muro
Palavra é afago
Palavra é murro.

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Universal

Eu gosto de falar com você, e um dia sem falar contigo me causa uma dor que faz tremer o universo. Eu não sabia disso, até o próprio universo vir reclamar comigo.

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Mas entenda, meu amor

Não consigo dizer tudo em palavras

E por vezes me perco na urgência de ser compreendido.

Mas entenda, meu amor:

As minhas palavras podem eventualmente me trair,

Mas minhas atitudes jamais te trairão.

Portanto, na dúvida, meu amor,

Repare bem nas minhas atitudes e ações

E também nas minhas reações

Diante das imprevisibilidades da vida.

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Revelação

Quero beijar a tua boca que não fala,

Mas que tudo revela.

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Sol de Outono

Que revela belezas esquecidas

Nos vãos da vida,

Nos trilhos da eterna viagem.

De onde vejo a paisagem

Pintada por sorrisos,

Borrada por lágrimas,

Mas ainda assim paisagem:

Quadros e retratos que sinto

Com os olhos da minha alma

Completamente escancarada.

Há beleza em tudo,

E hoje sei que as maiores belezas,

Das infinitas belezas do mundo,

Delicadamente me calam.

E quando estou mudo

É que mais ainda eu falo,

Pois ouço-me abissalmente,

Nas palavras que eu calo.

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Resistência

Houve um tempo

Em que as pessoas diziam

Exatamente o que iriam fazer.

Não havia opção.

Nas mentes e nos corações,

Uma mistura de honra, coragem e integridade,

Que eram então os alicerces do caráter.

Hoje, não mais.

Tudo é líquido,

Tudo muda da noite para o dia

E a única certeza é a mudança.

Palavras não valem mais de nada

E as atitudes são aleatórias.

A sociopatia coletiva não consegue distinguir

Lobos de ovelhas e nem ovelhas de lobos.

As narrativas se formam tendo como base

Os interesses e não mais a verdade.

Não há mais certo ou errado.

Há apenas o conveniente,

O raso, o rasteiro e o sem nexo.

Vivo neste mundo,

Mas não sou deste mudo,

E nunca irei me acostumar com isso.

Eu faço parte da resistência.