Não é de fato um adeus
Aquele que é lamentado em palavras
E chorado em poesias.
Talvez seja o prenúncio
De que um adeus que está por vir,
Mas não é mais do que isso.
O derradeiro adeus é mudo,
Cego e surdo:
É a morte do porvir.

As coisas ditas sem palavras dizem muito mais.

Você me conquistou no dia em que eu precisei ir
E sem palavras você me disse: “eu te espero”
Acabei por voltar de onde nem era o meu lugar
E sem palavras você me disse: “eu te quero”
E por fim, trocamos olhares tomando vinho no chão da sala
E sem palavras você me disse: “eu te amo”
Estou até agora sem palavras
E eu não sou de ficar sem palavras
Mas mesmo que eu tivesse todas as palavras
Meu coração resiste e ao mesmo tempo insiste
Para que eu lhe diga sem palavras: “eu também”.

Procuro um ponto
Um momento no horizonte
Onde as minhas chatices
Sejam vistas como bem menores
Do que tudo de bom que sei oferecer
Onde as palavras de amor que eu disse
Reverberem nas centenas de poemas de amor
Que eu já tantas vezes escrevi
Onde minhas atitudes coadunem minhas palavras
E que sejam inventadas todas as palavras
Necessárias para explicar o que só sei viver e sou
Onde a minha insistência e paciência
Sejam vistas e acolhidas como saudade
Com a vontade de estar, de acolher, de aceitar, de querer
Onde o meu esforço, as minhas lutas
Sejam sinais de que quero ser melhor
E não de que eu ainda não sou bom
Onde os meus passos em falso
Sejam vistos como tentativas de acertos
Por mim e por tudo ao meu redor
Onde a minha bondade não seja questionável
Ou vista como permissividade
Mas como lealdade eterna e puro querer
Onde a minha fiel sinceridade
Seja vista como motivo de encanto
Posto que nada é maior do que o amor que carrego em mim
Onde as minhas noites de sono
Antecedam dias de lindas surpresas
De paz, de virtude, de reciprocidade, de empatia
Onde minhas preces façam sentido
Para que meu corpo todo seja ouvidos
Para as palavras de Deus
Procuro um ponto
Um momento no horizonte
Onde o amor que transborda de mim
Desague no peito
De quem quer tudo que eu já sou
E de tudo que ainda há de ser melhor em mim.
Eu sou só um ser humano
Tentando ser melhor todos os dias
Eu sou só um ser humano
Que mesmo imperfeito –
E deveras verdadeiro –
É feito do mais puro amor e alegria.
Hoje, já sou melhor que ontem
Já sou melhor do que quando comecei
A sentir e escrever essa imperfeita –
E deveras verdadeira –
Poesia.

Sempre dei muita importância
Às palavras
Aos detalhes
Ao que foi dito
Gravado
Escrito
Reescrito
Prescrito
Proscrito
Até o infinito
Mas não se diz só com palavras:
Palavras sem lastro o vento leva
Feito barco à deriva
Que vagueia
Em direção aos rochedos
Na mais completa falta de perspectiva
Fica, então
O dito pelo não dito
Porque palavras sem atitudes
São feito barco impossível de navegar
Posto que até um porto
Terra firme
É imprescindível chegar.

Não me diga
Que eu não disse
O que foi dito
Tantas vezes.
Nem sempre com palavras,
Porque atitudes são mais explícitas:
Quem quer ficar, fica;
Quem quer comer, come;
Quem quer viver, vive;
E quem quer ser, é;
É tudo uma questão de querer.
E eu era tão óbvio…
Nas palavras e nas atitudes.
Eu as repetia,
Dia e noite, noite e dia,
Feito desfazer e arrumar a cama.
E hoje,
Depois de tanto dizer e agir –
E obviamente cansado, confesso –
Quero ser ainda mais óbvio:
Da vida espero obviedades também.

Minhas poesias de agora e de antes
Palavras ao vento
Pensar delirante
Até que ponto consigo precisar
E dizer o que é preciso?
Até que ponto consigo me calar
Diante do que carece de aparente nexo, juízo?
Eis minhas dúvidas de poeta
Que diante da felicidade e dor
Procura tão somente o que o coração sente
Posto que este só sente e é o mais puro amor.

Silêncio, dentro de mim.
Sua voz que tanto me dizia,
Que em acordava, me benzia,
Se foi, junto com você,
No último dia que pude ouvir.
Ficaram as palavras mudas,
De quem jurou, prometeu, se entregou,
Amou, seduziu, gozou,
Que fim tudo isso levou?
Não sei, embora precise saber,
Tudo se silenciou.
Sou silêncio agora,
Pois já disse tudo que podia,
Tudo que havia, tudo que sentia,
Nunca, nunca, hipocrisia,
Tudo verdade, tudo perfeito,
O que eu tinha como meu grande direito,
Se apagou, se emudeceu.
Ouço apenas o cantar dos pássaros,
Que levam e trazem minha saudade,
Reafirmam a minha dignidade,
E me mostram em seu vôo
A liberdade, para ir e vir,
Encontrar meu caminho,
Entre pedras e espinhos,
Minha vida, meu prazer.
E mesmo que eu fizesse muita força,
Você, minha boneca de louça,
Se quebrou, se partiu.
Ninguém, ninguém sorriu,
E o mundo imaginou
O que você nunca admitiu:
Quando você se foi, silêncio,
Dentro de mim,
Mas muito mais dentro de você.

Parece-me apropriado acreditar que o silêncio possa ser tão revelador quanto as palavras. Talvez, no silêncio, seja dito o que não se consegue dizer ou traduzir em palavras. O grande complicador, entretanto, é que o silêncio é essencialmente subjetivo e justamente por isso diz o que se quer dizer ou não.
