Domingo amanhece com teu cheiro, um perfume leve de sol na pele, como se o dia inteiro fosse feito para te encontrar.
Tem gosto de beijo lento, daqueles que não têm pressa, que sabem exatamente onde morar na boca do outro.
Tem abraço que encaixa, que fecha o mundo lá fora e abre um lugar secreto onde só cabem dois.
Tem lugares que viram nossos, mesmo que sejam simples: a varanda, a rua vazia, a sombra de uma árvore qualquer. Tudo ganha brilho quando tua lembrança passa por ali.
E tem o tempo — esse velho teimoso — que no domingo parece aprender a caminhar no ritmo do amor, sem urgência, sem medo, só com vontade de ficar.
Porque algumas lembranças não doem, não pesam, não partem. Apenas aquecem. E as tuas, meu bem, aquecem como sol de fim de tarde.
Pip: Agora Babou publicou uma semana inteira de poesia sobre amor que não coube, dor que não pede licença e sol que simplesmente existe — sem perguntar se alguém estava pronto.
Mara: É isso. Vamos percorrer três territórios: o amor que fica mesmo quando a relação vai embora, a cidade e o instante como presenças físicas, e a dor como travessia. Começamos pelo desencontro.
Amor, ausência e desencontro
Pip: O fio que atravessa esses poemas não é o fim do amor — é o amor que persiste depois que o lugar para ele desaparece. A pergunta que eles fazem é: o que se faz com um sentimento que sobrevive ao espaço que o sustentava?
Mara: "Em mim" coloca isso desde o primeiro verso. O poema diz: "Há uma falta em mim que não se explica, e que eu ainda não soube afastar. Vive no gesto mais simples que fica, quando tento seguir, mas volto a lembrar."
Pip: A falta não é ausência da pessoa — é presença da pessoa dentro de quem ficou. Ela não some; ela migra para dentro. E isso muda tudo sobre o que significa seguir em frente.
Mara: "O teu cheiro" leva isso ao concreto: o amor que ficou não é metáfora, é físico — no carro, nas roupas, no colchão. "Quase igual" vai para outro ângulo: o deslocamento lento do que parecia fixo, sem que ninguém nomeie o gesto de partir.
Pip: E "Topografia do Ausente" dá o mapa disso tudo — literalmente. O amor persiste como brasa sob cinza, mas amar sozinho tem peso. Há um momento em que continuar é participar do próprio apagamento.
Mara: "Campo não atingido" nomeia esse limite com precisão: "não é a ausência que apaga alguém, é o transbordamento no lugar que nada contém." E a saída não é ruptura — é retirar o próprio reflexo de um espelho que parou de devolver imagem.
Pip: "Onde não fui dito" fecha o ciclo pelo lado de quem nunca teve lugar à luz. Não era sobre esforço — nunca foi. Era sobre não ser sequer pensado como escolha.
Mara: Os dois haikus condensam tudo isso em silêncio. "Campo não atingido — Haiku": insistir sem caber, e seguir inteiro. "Sem ruído": o amor que não faz barulho, mas também não vai embora. São a margem do que os poemas maiores disseram.
Pip: Do amor que não encontra superfície, passamos para o que simplesmente ocupa o espaço — sem pedir.
Cidade, corpo e instante
Pip: Aqui o registro muda: saímos do interior para o exterior. O sol, a cidade, o instante que respira no meio do silêncio. Presenças que existem sem decidir existir.
Mara: "O Sol" diz exatamente isso: "seu brilho não mede o que vai atingir, nem pesa o espaço que irá tocar; simplesmente existe, sem decidir, e ocupa tudo ao se espalhar."
Pip: Existe sem decidir. Depois de todos aqueles poemas sobre esforço e insistência, isso chega como alívio involuntário.
Mara: "Desvio" é um haiku de um único acontecimento: no meio do silêncio, algo respirou. "Niterói sorri" ancora isso num lugar e num gesto físico — o chopp, a boca, o entardecer. O instante tem endereço.
Pip: Da presença que simplesmente ocupa, chegamos ao que dói — e ao que resiste.
Dor e resistência
Mara: "Ainda assim" não romantiza a dor. Ela descreve o peso antes de qualquer elaboração: "A dor não bate à porta. Ela entra. E ocupa."
Pip: Sem causa clara, sem argumento que alivie. O que resta é atravessar — com o que ainda sobra de si, sem diminuir o que foi sentido.
Mara: E o poema não promete cura — promete que a dor cede. Não porque o sentimento acaba, mas porque algo aprende a suportar. "Ainda assim (2)" comprime isso num haiku: força não é sustentar a aparência. É deixar cair, e ainda assim, existir.
Pip: Dois poemas, uma única afirmação: ainda de pé não significa ileso.
Mara: O que fica dessa semana é uma espécie de cartografia do que persiste — o amor, a dor, a luz — mesmo quando o lugar para eles some.
Pip: Persistir sem superfície. Existir sem decidir. Ainda assim. Até o próximo episódio.
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