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Ainda

Talvez eu ainda não saiba
atravessar tudo isso
como poderia.

Há momentos em que peso
quando bastava
tocar mais leve.

E, se é assim,
eu sinto muito.

Não como culpa,
mas como quem percebe
que a dor também desvia
o gesto
e silencia.

Mesmo assim,
há algo em mim
que não se move.

Eu te quero
com verdade.

Estou contigo,
inteiro no que sou,
o que não significa
que eu não possa ser mais.

Há algo entre nós
que não se divide,
não se explica,
não se oferece ao mundo.

A verdade,
essa que não precisa ser dita:

é nossa.

E de mais ninguém.

E, por isso,
não há espaço
para o que vem de fora,
nem para o que tenta ocupar
o que nunca foi seu lugar.

Há o que é nosso.

E isso
permanece

intocável.

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Rendição

rendo-me também
ao que em você me encontra

sem defesa,
sem medida

teu sorriso me chama
pelo meu nome

e eu vou
inteiro

sem volta,
sem recuo

há em mim essa entrega
crua, exposta

um querer que não se contém,
que não pede razão

teus mistérios me tomam
teu mundo me envolve
me atravessa
me desarma
e eu me deixo
porque já não sei existir
onde tu não estejas

te tenho em mim
não como abrigo
mas como munso vasto
onde me perco
onde me encontro
onde já não sei me separar
de ti

te querer
é também febre de mim,
por mim

é excesso
é vertigem
é queda
e ainda assim
é onde descanso
do princípio
até o fim

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Febril


há também tempestades em mim

não contidas —
apenas vivas
no que insiste em atravessar

teu eco rompe minhas madrugadas
sem aviso,
sem rumo,
sem descanso

e eu também permaneço desperto
mesmo quando o corpo cede

precipito, sim —
não por falta de ver,
mas por não caber em mim

entre fé e futuro
também me perco

e o repouso me escapa
pelas mesmas frestas
onde tua ausência insiste

te tenho em mim —
não como escolha,
mas como algo que fica e é

a falta de você
também me revira
também me atravessa

e me encontra
onde eu já não sabia existir

te querer em mim
arde igual

é febre,
é excesso,
é o que não se aquieta

e, no meio disso tudo,
eu não peço alívio

a nossa diferença?

eu tenho uma febre que aprendeu
a não pedir cura

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Todos

Te brindo pelos dias inesquecíveis:

Os que passei contigo

E os que passei sem ti.

Pois tu és tudo que me lembro:

Das manchas no lençol

Às lágrimas que fingi sorrir.

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Quebrado

Há feridas que não aparecem,
e que parecem não precisar de cuidado imediato.

Aprendem cedo
a se esconder na pele —
aparentemente intacta.

E, por fora, tudo parece calmo.

É como se a vida tivesse sido leve
em alguns corpos.

Mas eu sei…

Ninguém atravessa o tempo
sem ser marcado.

Há dores que não deixam rastro,
porque nunca puderam sangrar —
mesmo quando era necessário.

Há quem aprenda cedo
a sorrir onde arde,
onde mais arde.

E a chamar de paz
o que na verdade é ausência de voz.

Não invejo mais as superfícies.

Desconfio delas.

E, às vezes,
é no que parece inteiro
que a fratura é mais funda.

Porque nem tudo que não dói
está, de fato, inteiro.

Me reconheço mais nos quebrados —
há neles uma honestidade
que não se esconde,
que marca.

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Entre Ruídos

Há vozes que não se mostram,
mas atravessam.

Agem nas sombras
de seus infortúnios.

Não chegam como palavra,
chegam como desvio.

Pequenos gestos,
dizeres à meia-luz.

Um cuidado que se traveste de zelo,
mas que não ajuda – separa.

E, sem que se veja,
algo se desorganiza

Laços temporariamente cedem.

Não pelo peso do tempo,
mas pelo que sussurra
fora do alcance.

E quando se percebe,
há distância
onde antes havia caminho.

Não por falta de presença,
mas por excesso de sombras
desconvidadas.

E, ainda assim,
o que é de verdade
não se desfaz:

Apenas atravessa o que tenta separá-lo.

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Domingo, fim de tarde

Domingo amanhece com teu cheiro, 
um perfume leve de sol na pele, 
como se o dia inteiro 
fosse feito para te encontrar.

Tem gosto de beijo lento, 
daqueles que não têm pressa, 
que sabem exatamente 
onde morar na boca do outro.

Tem abraço que encaixa, 
que fecha o mundo lá fora 
e abre um lugar secreto 
onde só cabem dois.

Tem lugares que viram nossos, 
mesmo que sejam simples: 
a varanda, a rua vazia, 
a sombra de uma árvore qualquer. 
Tudo ganha brilho 
quando tua lembrança passa por ali.

E tem o tempo — 
esse velho teimoso — 
que no domingo parece aprender 
a caminhar no ritmo do amor, 
sem urgência, sem medo, 
só com vontade de ficar.

Porque algumas lembranças 
não doem, não pesam, não partem. 
Apenas aquecem. 
E as tuas, meu bem, 
aquecem como sol de fim de tarde.

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Mundo vasto

Teu mundo me abre:

perco-me para encontrar-te

onde já sou nós.

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Ausência viva

Tua falta arde

pelas frestas da madrugada:

meu corpo vigia.

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Podcast 05: Amor, Falta e Silêncio

Pip: Agora Babou publicou uma semana inteira de poesia sobre amor que não coube, dor que não pede licença e sol que simplesmente existe — sem perguntar se alguém estava pronto.

Mara: É isso. Vamos percorrer três territórios: o amor que fica mesmo quando a relação vai embora, a cidade e o instante como presenças físicas, e a dor como travessia. Começamos pelo desencontro.

Amor, ausência e desencontro

Pip: O fio que atravessa esses poemas não é o fim do amor — é o amor que persiste depois que o lugar para ele desaparece. A pergunta que eles fazem é: o que se faz com um sentimento que sobrevive ao espaço que o sustentava?

Mara: "Em mim" coloca isso desde o primeiro verso. O poema diz: "Há uma falta em mim que não se explica, e que eu ainda não soube afastar. Vive no gesto mais simples que fica, quando tento seguir, mas volto a lembrar."

Pip: A falta não é ausência da pessoa — é presença da pessoa dentro de quem ficou. Ela não some; ela migra para dentro. E isso muda tudo sobre o que significa seguir em frente.

Mara: "O teu cheiro" leva isso ao concreto: o amor que ficou não é metáfora, é físico — no carro, nas roupas, no colchão. "Quase igual" vai para outro ângulo: o deslocamento lento do que parecia fixo, sem que ninguém nomeie o gesto de partir.

Pip: E "Topografia do Ausente" dá o mapa disso tudo — literalmente. O amor persiste como brasa sob cinza, mas amar sozinho tem peso. Há um momento em que continuar é participar do próprio apagamento.

Mara: "Campo não atingido" nomeia esse limite com precisão: "não é a ausência que apaga alguém, é o transbordamento no lugar que nada contém." E a saída não é ruptura — é retirar o próprio reflexo de um espelho que parou de devolver imagem.

Pip: "Onde não fui dito" fecha o ciclo pelo lado de quem nunca teve lugar à luz. Não era sobre esforço — nunca foi. Era sobre não ser sequer pensado como escolha.

Mara: Os dois haikus condensam tudo isso em silêncio. "Campo não atingido — Haiku": insistir sem caber, e seguir inteiro. "Sem ruído": o amor que não faz barulho, mas também não vai embora. São a margem do que os poemas maiores disseram.

Pip: Do amor que não encontra superfície, passamos para o que simplesmente ocupa o espaço — sem pedir.

Cidade, corpo e instante

Pip: Aqui o registro muda: saímos do interior para o exterior. O sol, a cidade, o instante que respira no meio do silêncio. Presenças que existem sem decidir existir.

Mara: "O Sol" diz exatamente isso: "seu brilho não mede o que vai atingir, nem pesa o espaço que irá tocar; simplesmente existe, sem decidir, e ocupa tudo ao se espalhar."

Pip: Existe sem decidir. Depois de todos aqueles poemas sobre esforço e insistência, isso chega como alívio involuntário.

Mara: "Desvio" é um haiku de um único acontecimento: no meio do silêncio, algo respirou. "Niterói sorri" ancora isso num lugar e num gesto físico — o chopp, a boca, o entardecer. O instante tem endereço.

Pip: Da presença que simplesmente ocupa, chegamos ao que dói — e ao que resiste.

Dor e resistência

Mara: "Ainda assim" não romantiza a dor. Ela descreve o peso antes de qualquer elaboração: "A dor não bate à porta. Ela entra. E ocupa."

Pip: Sem causa clara, sem argumento que alivie. O que resta é atravessar — com o que ainda sobra de si, sem diminuir o que foi sentido.

Mara: E o poema não promete cura — promete que a dor cede. Não porque o sentimento acaba, mas porque algo aprende a suportar. "Ainda assim (2)" comprime isso num haiku: força não é sustentar a aparência. É deixar cair, e ainda assim, existir.

Pip: Dois poemas, uma única afirmação: ainda de pé não significa ileso.


Mara: O que fica dessa semana é uma espécie de cartografia do que persiste — o amor, a dor, a luz — mesmo quando o lugar para eles some.

Pip: Persistir sem superfície. Existir sem decidir. Ainda assim. Até o próximo episódio.