Avatar de Desconhecido

O homem do espelho

Há uma série de respostas que espero do homem do espelho.

Mas talvez a demora não seja culpa dele.

Talvez eu ainda não as tenha encontrado por não saber formular as perguntas certas.

Talvez eu esteja há anos tangenciando as perguntas.

Ou, mais difícil ainda, talvez me falte a coragem de fazê-las.

Avatar de Desconhecido

Entre a pele e a memória

I. A promessa

Nos teus lábios há
promessas que o silêncio
jamais desmentiu.
E eu sigo descobrindo
novos caminhos em ti.


II. O segredo

Teu nome repousa
na curva dos meus desejos
como um segredo.
Quanto mais tento esquecê-lo,
mais se aproxima de mim.


III. A espera

A noite demora.
Mas tua ausência desperta
o que adormece.
Há amores que insistem
em florescer no escuro.


IV. A falta

Não é só desejo.
É reconhecer teu corpo
na própria falta.
Como quem toca uma música
mesmo sem ouvir o som.


V. A permanência

Era só um olhar.
Mas trouxe de volta a chama
que eu conhecia.
Há desejos que não morrem,
apenas aprendem a esperar.


Avatar de Desconhecido

O mistério das coisas comuns

Há uma sabedoria secreta nas coisas que não fazem alarde.

.

O relógio que atravessa os anos

sem jamais atrasar da própria vida.

A cadeira vazia que continua aguardando alguém,

mesmo depois de todos terem partido.

A xícara esquecida sobre a mesa,

guardando no fundo

uma borra de café

como quem preserva uma memória.

.

Há um mistério discreto

na poeira que dança ao sol,

na planta que se inclina para a janela,

na chuva que escurece lentamente a calçada.

.

Talvez o extraordinário

não esteja nas grandes descobertas,

nem nos horizontes distantes.

Talvez more justamente

nas pequenas coisas

que repetem o seu ofício

sem imaginar

que alguém as observa.

.

E talvez seja por isso

que a vida passe tão depressa:

não porque falte tempo,

mas porque quase nunca paramos

para escutar

o silêncio das coisas comuns.

Avatar de Desconhecido

O que permanece

De tudo, o amor ainda resta.

A chama permanece. Nem sempre ilumina o suficiente.

Há caminhos que o amor percorre, mas há portas que o amor não abre.

E talvez a parte mais difícil não seja deixar de amar.

Seja descobrir que amar, mesmo com todas as forças da alma, pode não ser o suficiente.

E sentir, profundamente, que a parte mais bonita que há em mim, talvez nunca encontre lugar para existir.

Não por falta de verdade ou da mais absoluta entrega.

Apenas porque algumas distâncias são maiores do que os braços que estendemos.

Maiores do que tudo o que temos para oferecer.

E algumas portas permanecem fechadas para quem bate nelas com o coração.

Avatar de Desconhecido

De novo, talvez

Talvez amanhã.

Talvez nunca, meu bem.

A essência do talvez é essa:

Uma moeda arremessada,

Um cara ou coroa

misturado com a Lei de Murphy,

com a Lei do Karma,

com a opinião de quem

mal te conhece

ou quer saber

dos teus porquês.

Se estou certo?

Veremos…

Talvez.

Avatar de Desconhecido

O vento sabe

Casa acesa.

Sombras dançam na janela.

Não entro nelas.

O vento sabe meu nome,

mas ninguém o pronuncia.

Avatar de Desconhecido

Sashimi

Não tenho culpa
de te seguir com os olhos,
enquanto você repousa
do outro lado da mesa.

Tua boca pede,
teu perfume invade,
teu pescoço puxa,
teu silêncio cobra:
tudo em ti pulsa.

Você entrega tudo no olhar.

Desejo cru.

E nenhum de nós dois sabe —
ou quer —
fugir disso.

Avatar de Desconhecido

Quase…

Quase…

Foi feliz,

Se entregou sem temor,

Pisou fundo no acelerador,

Sendo profundamente amada, amou,

Viveu.

Outro dia, quase foi gol.

A bola beijou a trave!

A torcida gritou!

Mas o jogo terminou 0 x 0.

Avatar de Desconhecido

Eixo do instante

No tempo que passa,

o instante se pergunta:

prioridades

são pontes invisíveis

entre o ser e o tornar‑se.

Avatar de Desconhecido

Aprendiz

Me desculpa por aquilo que eu não disse,
Quando te amei, virei para o lado, e adormeci.
Eu diria no dia seguinte,
Da mesma forma de sempre,
Com a mesma vontade de sempre,
Em um dialeto que só tu serias capaz de entender.

Me desculpa se, no meu cansaço,
Relaxei nos teus braços, triunfante,
Radiante, eufórico, vitorioso,
Sentindo ainda o torpor do nosso gozo,
Teu cheiro em meu corpo,
Meu coração em tuas mãos.

Me desculpa pela minha verdade,
Pela minha ingênua sinceridade,
Por nunca ter te ocultado nada,
Por ser simples, previsível, correto,
Do meu amor estar sempre certo,
Sempre homem, todo teu.

Me desculpa por não ter te traído,
Por em nenhum momento ter te esquecido,
Por te achar a mais linda de todas,
De todas as que eu nunca quis,
E que diziam, me fariam – quem sabe – feliz!
Mas não eram como eras, como sou.

Agora que fostes embora,
Abraço-me á solidão de minhas horas,
Revelando-me aos poucos, sem pressa,
Para o mundo, que com todas as portas abertas,
Me acolheu, me convidou, me escolheu,
Para ser do amor um eterno aprendiz.

bertrand_russel_temer_o_amor_e_temer_a_vida_e_os_que_temem