Avatar de Desconhecido

Espaço

Perguntas se ocupas em mim
o espaço que preencho em ti.

Não sei medir afetos.

Mas sei que tua lembrança
atravessa meus dias sem pedir licença.

Sei que uma mensagem tua
é capaz de iluminar uma tarde inteira.

Sei que tua voz permanece
mesmo depois do silêncio.

Sei que teu perfume insiste
mesmo quando já não estás.

E sei que, entre os encontros
que a vida me ofereceu,
há poucos que habitam meus pensamentos
com tamanha delicadeza
e riqueza de detalhes.

E também sei que, entre as pessoas
que o tempo me trouxe,
há poucas cuja felicidade
importa tanto quanto a tua


Estás aqui.

Agora.

Nestes versos.

No mesmo convite,

Que refiz e refaço,
em palavras e atos,
todos os dias:

Tu és a resposta não só para a tua própria pergunta,
mas para todas que eu tinha antes de ti.

Avatar de Desconhecido

Lembranças do Futuro

I. Reconhecimento

Passos antigos,
e o coração reconhece
o que era abrigo.
Sem pedir licença, a luz
volta a caber nos meus dias.


II. Possibilidade

Depois do inverno,
uma flor sabe o caminho
sem mapa algum.
Há chegadas que parecem
lembranças do futuro.


III. Transformação

A tarde hesita.
Entre silêncios, um gesto
desfaz distâncias.
O que pensei ter perdido
apenas mudara de lugar.

Avatar de Desconhecido

Primavera

A cidade floresce,
indiferente ao meu inverno –
flores que não pedi.
Mas insisto em caminhar
por entre o que ainda nasce.

Tudo se renova,
menos o que ainda dói em mim.
E mesmo assim sigo,
aprendendo com o verde
a insistir, apesar de tudo.

Há uma força antiga
que não pergunta se estou pronto –
ela apenas brota.
E eu, feito raiz teimosa,
aprendo a florescer ferido.

Pois toda primavera
já foi inverno em outra vida,
e quem atravessa
carrega no próprio peito
o verão que ainda há de vir.

Avatar de Desconhecido

Em mim – Haiku

Em mim, silêncio:

tudo que não foi dito

ainda te diz.

Avatar de Desconhecido

Permaneço

Porque há um tanto de ti que se acende em mim,
que queima minha pele de dentro para fora,
mesmo quando o dia é silêncio.

Teu nome repousa no meu pensamento,
como quem encontra definitiva estada.

Teu perfume — memória viva —
desenha caminhos no ar que me levam até ti.

E quando teu sorriso atravessa minha lembrança,
meu mundo se ajeita,
como se soubesse exatamente onde deve estar.

Teu toque, ainda que distante,
move meus desejos
como vento que sabe a direção.

E nesse espaço que era só meu,
tu chegaste sem pedir licença
e fizeste morada.

Minha vida, agora,
não apenas te espera:
ela te quer.

Avatar de Desconhecido

Em busca de ti

Ando em busca daquela palavra

Daquele momento

Daquele instante

Daquele beijo

Daquele abraço

Daquela brasa

Daquele dulçor

Daquele mel

Que escorre da boca

Das coxas

Nunca em vão.

Ando em busca de ti

E não sei ser mais direto que isso.

Avatar de Desconhecido

Não é o tecido

Não é o tecido.
Não é a transparência.
Não é a cor escolhida
nem o desenho discreto das linhas.

É a memória que a acompanha,
o gesto de quem a escolhe,
a vida que lhe dá forma,
a pele que lhe empresta significado.

Há objetos que apenas cobrem,
e outros que guardam silêncios.

Não pelo que mostram,
mas pelo que lembram
e por tudo o que ainda fazem imaginar.

Como uma fotografia
cuja beleza nunca esteve no papel,

mas na luz
que permaneceu dentro dela.

Uma silhueta vista de relance.
Um certo ângulo.
Uma perspectiva que existe apenas
para aquele olhar.

Mas algumas experiências
se recusam a ficar apenas no passado.

Continuam vivas.

Não como recordação,
mas como presença.

Como algo que ainda inspira conversas,
desperta sorrisos
e sugere novos capítulos.

Na troca de olhares
que diz mais do que as palavras.

Na deliciosa cumplicidade
de uma cena conhecida,

cujo encanto nunca dependeu
da novidade.

Como um desfile já aplaudido
antes mesmo de começar,

não pela surpresa,

mas pela alegria antecipada
de vê-lo acontecer outra vez.

Entre olhares, sorrisos

e suspiros
que já conhecem o caminho.

E talvez porque exista

uma espécie de entendimento silencioso:

o prazer de ser admirada
e a felicidade de admirar.

Como se a beleza encontrasse seu sentido

justamente no encontro

entre o prazer de encantar

e a felicidade
de se deixar encantar.

Porque a beleza, às vezes,

não mora nas coisas.

Mora naquilo
que elas tornam possível.

Uma memória.
Uma fotografia.
Uma silhueta atravessada pela luz.

Mora nos instantes
que já aconteceram

e, mesmo assim,

continuam apontando para a frente.

Nos planos feitos entre sorrisos.

Na expectativa tranquila
de viver novamente
o que foi tão bom.

Porque algumas histórias

não pedem para ser repetidas.

Pedem para continuar.

E talvez seja isso:

não o tecido,

não a transparência,

nem mesmo a pele.

Mas aquilo que permanece
entre duas pessoas

e transforma uma experiência feliz

no início
do próximo capítulo.

Avatar de Desconhecido

Feijão

Antes, eu só sabia comer –
o feijão chegava pronto,
como se sempre tivesse existido,
paciência de alguém que eu não via.

Hoje refogo o alho até a casa cheirar,
espero o caldo engrossar sozinho,
aprendo que fogo baixo é quase tudo,
que tempo não se apressa, se respeita.

Não é fórmula, é feijão:
o grão que estoura devagar,
o sal que entra na hora certa,
o cheiro que anuncia antes do gosto.

E talvez seja isso –
aprender a cozer o simples,
descobrir que cuidar de uma panela
também é uma forma de cuidar de casa.