Há feridas que não aparecem,
e que parecem não precisar de cuidado imediato.
Aprendem cedo
a se esconder na pele —
aparentemente intacta.
E, por fora, tudo parece calmo.
É como se a vida tivesse sido leve
em alguns corpos.
Mas eu sei…
Ninguém atravessa o tempo
sem ser marcado.
Há dores que não deixam rastro,
porque nunca puderam sangrar —
mesmo quando era necessário.
Há quem aprenda cedo
a sorrir onde arde,
onde mais arde.
E a chamar de paz
o que na verdade é ausência de voz.
Não invejo mais as superfícies.
Desconfio delas.
E, às vezes,
é no que parece inteiro
que a fratura é mais funda.
Porque nem tudo que não dói
está, de fato, inteiro.
Me reconheço mais nos quebrados —
há neles uma honestidade
que não se esconde,
que marca.
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