Avatar de Desconhecido

O teu cheiro

O teu cheiro era bem mais que teu perfume, que ficava entranhado nas minhas roupas e em todo o meu corpo.

O teu cheiro perfumava o meu quarto, a minha roupa de cama, as minhas toalhas, o meu colchão.

O teu cheiro ficou no meu carro e vai passear e trabalhar comigo.

O teu cheiro era a certeza de que eu tinha encontrado a minha fêmea.

O teu cheiro era como nenhum outro.

E teu cheiro passou a ser o meu cheiro.

E hoje, ainda que distantes, eu te exalo pelos meus poros.

O teu cheiro foi o amor que ficou em mim.

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Niterói sorri

Noi ao entardecer,

o chopp beija a boca –

Niterói sorri.

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Sem ruído

Noite em suspenso:

o amor não faz ruído,

mas não vai embora.

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Onde não fui dito

Eu vi:
um gesto simples, público, permitido.
E entendi, enfim,
o que você nunca disse.

Não era sobre o mundo.
Nem sobre os outros.
Nem sobre tempo.

Era sobre mim.

Sobre o lugar que eu não tinha.

Porque estar ao seu lado
exigiria algo que nunca veio:
um nome,
um lugar à luz,
um gesto que dissesse –
sem esforço –
“é ele.”

E o que mais dói
não é a ausência da declaração,
mas o fato de que
ela nunca foi sequer pensada.

Passei tanto tempo
tentando caber nisso…

Fazendo mais,
dizendo melhor,
oferecendo o que eu tinha
e o que nem tinha direito de dar,
como se fosse possível,
em algum ponto,
me tornar visível.

Mas não era sobre esforço.

Nunca foi.

Eu me perdi
tentando provar algo
que já era meu.

E hoje eu sei,
com uma clareza que chega tarde:
eu era suficiente.

Só não era para você.

E há algo profundamente injusto nisso:
ser abrigo
sem ter casa.

Ser chamado quando falta
e ignorado quando sobra.

Existir nas sombras
de uma história
que nunca pôde me ter inteiro.

Você sabia.
Em algum nível, sempre soube.

E ainda assim,
esperava de mim segurança
num terreno onde
o chão nunca foi firme.

Tudo o que eu quis –
e não foi pouco, mas também não foi demais –
foi o direito simples
de existir ao seu lado.

Não como exceção.
Não como pausa.
Mas como escolha.

E isso
você nunca me deu.

Então eu fico com o que resta:
não a ausência,
não só a saudade,
mas a certeza dura
de que o amor
não sustenta
aquilo que não é assumido.

E o que mais lamento,
não é o fim.

É nunca ter tido, de fato,
um início verdadeiro.

Porque, no fim,
o que você me tirou
não foi apenas você.

Foi a chance
de ser, ao seu lado,
aquilo que eu sei que sou:

Inteiro.

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Campo não atingido – Haiku

Insisto, não há

lugar onde eu caiba

e sigo inteiro.

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Campo não atingido

Não foi falta de gesto.
Nem ausência.

Houve palavra.
Houve tempo.
Houve um corpo inteiro
se inclinando na direção de alguém.

Como estar diante do outro,
com tudo o que se é,
e ainda assim
não atravessar o seu campo de visão.

Então, você avança,
tenta consertar o que não se deixa ajustar.

Afina a linguagem,
oferece mais tempo,
mais escuta,
mais disponibilidade do que havia lugar.

Você chega mais perto.

E é aí
que o tudo se desfaz.

Não há respostas —
apenas retornos tortos,
como quem não sustenta o peso
do que recebe.

Você se estende,
e o excesso, nesse ponto,
já não é mais presença:
é exposição.

Não é a ausência que apaga alguém,
é o transbordo
no lugar que nada contém.

Você fala,
fica,
insiste…

E não alcança.

Não por erro.
Não por falta.

Mas porque, do outro lado,
não há superfície
onde o que você é repouse.

Dói
com uma precisão que não grita.

Porque o amor ficou,
mas sem lugar.

E é então que algo muda de eixo.

Não há recuo.
Não há escolha limpa.

Há um reconhecimento duro:
continuar
já não é cuidar;
é se entregar ao apagamento.

Mas há um limite:
nítido, ainda que invisível,
que o outro não vê.

E não é distração.
Não é atraso.

É limite.

E permanecer
é participar
da própria ausência.

Então, ir embora acontece.

Não como gesto forte.
Não como ruptura.

Mas como quem retira o próprio reflexo
de um espelho
que não devolve mais imagem.

E o mais difícil
é saber
que o amor não acabou.

Mas dizer, mesmo assim:
não fico
onde não posso existir.

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Topografia do Ausente

Não é o amor que acaba primeiro.

Ele fica.

Como um móvel esquecido
numa casa que ainda guarda calor,
mas que já não sustenta presença.

O que se perde antes
é a delicadeza de reconhecer o outro
como território, como extensão:
um mapa mínimo, íntimo,
que se dobra, se fecha,
e deixa de ser lido.

É esquecido.

De repente, você fala
e a sua voz não pousa.

Paira.

Não há queda, nem choque,
só um deslocamento lento das coisas,
como se o mundo, exausto,
desaprendesse o equilíbrio de dois.

O amor, então, persiste
por debaixo,
quase brasa sob cinza.
Mas amar sozinho
é um silêncio com memória:
isso pesa, dói.

Há um instante — quase cego —
em que você se percebe menor,
ajustando arestas,
apagando excessos,
pisando em ovos
para caber no resto.

E é ali,
nesse quase nada,
que algo insiste:
não é orgulho,
não é dor nem fúria:
é precisão.
Uma lembrança exata
de quem você é quando inteiro.

E isso não se negocia.

Ir embora
não rompe o que houve:
expõe a falta do que sustentava.

Porque há amores que continuam
mesmo depois de esquecidos
no corpo do outro,
mas nenhum atravessa o tempo
sem o mínimo gesto
de reconhecimento.

Então você fecha a porta devagar,
como quem ainda alinha os objetos
antes de sair.

(não se quebra o que fica)

E depois, sem anúncio,
já em outra paisagem,
o corpo se refaz:
aprende de novo o espaço,
a medida,
o direito simples
de existir inteiro.

E, pouco a pouco,
sem que se perceba,
o mundo volta a oferecer passagem.

Não é o mesmo gesto.
Não é o mesmo nome.

É apenas isso:
alguém que sustenta o olhar
– e fica.

E ali,
sem esforço,
o encontro acontece.

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Quase igual

O tempo desloca o que parecia ficar,
quase sem aviso, altera o sentir.
O que antes cabia começa a não estar,
sem que se nomeie o gesto de partir.

Há gestos que já não encontram lugar,
palavras que soam sem o mesmo tom.
O que antes vibrava aprende a calar,
e a antiga presença recua no som.

Mas algo persiste sem buscar lugar,
um traço difuso que insiste em seguir.
Não volta ao que foi nem deixa de estar,
apenas se inclina ao que é existir.

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Em mim

Há uma falta em mim que não se explica,
e que eu ainda não soube afastar.
Vive no gesto mais simples que fica,
quando tento seguir, mas volto a lembrar.

Ainda te encontro em coisas mínimas,
num gesto breve, num jeito de rir.
E algo em mim, nas horas mais íntimas,
insiste em silêncio em te repetir.

Não digo teu nome – quase não preciso –
ele acontece em mim, sem chamar.
E sigo assim, entre o que não foi dito,
e o que ainda não soube calar.

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O Sol

O sol rompe o limite da manhã,
dissolve o frio que tenta ficar;
desperta o mundo sem nenhum amanhã,
e acende o que insiste em apagar.

Seu brilho não mede o que vai atingir,
nem pesa o espaço que irá tocar;
simplesmente existe, sem decidir,
e ocupa tudo ao se espalhar.

E mesmo ao ceder ao gesto de partir,
deixa no céu o que não quis cessar;
é nele que a noite insiste em surgir,
um traço de luz que persiste no ar.