Hoje eu escolho não resolver.
Não por preguiça,
nem por fuga —
por saber
que algumas respostas
só chegam
a quem não tem pressa.
O mundo insiste
que é tudo agora:
decide, responde,
conclui, conserta.
Mas há uma sabedoria antiga
em deixar a noite ser noite.
Em dizer ao que aperta:
amanhã eu te escuto.
Não é abandono.
É cuidado.
É saber que a pressa
estraga o que o tempo cozinha.
As respostas que vêm de madrugada
quase sempre mentem.
Nascem do cansaço,
não da verdade.
Então eu guardo.
Deixo repousar.
Dou a cada coisa
o tempo que ela merece —
e a mim,
o direito
de não ter que dar conta
de tudo
de uma vez.
Amanhã eu volto.
Amanhã, com luz,
o que hoje parecia abismo
talvez seja só chão
que eu ainda não tinha pisado.
