Comprei panos novos hoje —
oito, em dois conjuntos,
o linho ainda duro,
sem nenhuma história.
Penso nos que já tive:
o pano puído não falhou.
Está gasto porque serviu.
O desgaste é currículo,
não defeito —
o que mais secou
é o que mais parece usado.
Dobrar é um gesto antigo.
Alinhar as pontas,
achatar o vinco com a palma,
guardar na gaveta certa.
O certo era jogar fora.
Eu dobro.
Há coisas que a gente dobra
com o mesmo cuidado —
não pra esquecer,
mas pra saber onde estão
quando a mão precisar.
Só que tem uma gaveta
que não é minha.
E nela, dobrado com cuidado,
pra saber onde estou
quando outra mão precisar —
estou eu.
