Avatar de Desconhecido

Esgarço

Tem gente diante de quem
a gente se encolhe.
Mede a palavra,
guarda o excesso,
veste a versão apresentável.

Diante dela, não.

Diante dela eu me esgarço —
essa é a palavra que me veio:
como tecido que alguém estica
até aparecer a trama,
os fios que eu nem sabia
que me formavam.

Não é que ela me pergunte.
É que perto dela
o que estava dobrado
se abre.

E o tempo, então,
perde a medida:
um minuto rende uma hora,
uma hora vira dia,
há instantes com ela
que não cabem em relógio nenhum.

E o estranho
não é me revelar.
É não ter medo depois.
Ficar inteiro, à mostra,
e sentir que tudo bem —
que ninguém vai usar
contra mim
o que eu mostrei.

E tem uma coisa
que eu custo a explicar:
a sensação de que isso
chegou na hora exata.
Que não foi acaso —
que a vida, de algum modo,
andou arrumando os caminhos
pra que a gente se encontrasse
justo agora,
nem antes, nem depois.

Não sei dar nome a isso —
e talvez seja esse o ponto.
Indefinível, imperfeita, inacabada,
ela se diz.
E eu, que me descobri
assim também —
indefinível, imperfeito, inacabado —
entendo agora
que é justo aí,
nesse não caber em forma nenhuma,
que a vida ainda acontece.

E foi preciso
alguém como ela
pra me esgarçar
e me encontrar
inteiro
na própria trama.