Houve um tempo
em que o coração cedeu
sem barulho.
Não foi um rompimento abrupto:
foi desgaste,
pressão contínua,
até que algo se partiu por dentro.
E ali ficaram as marcas:
fibras abertas,
fendas expostas,
memórias que não se escondem.
Eu poderia ter coberto com silêncio,
negar a queda,
seguir como se nada tivesse sido.
Mas escolhi outro caminho.
Recolhi os fragmentos –
um a um –
com as mãos que ainda tremiam,
sem negar o que quebrou.
E então compreendi:
não era para esconder as fissuras.
Era para preenchê-las.
Com ouro.
Não para disfarçar a queda,
mas para torná-la parte do que sustenta.
Cada rachadura
recebeu aquilo que ainda havia de melhor em mim:
Presença.
Verdade.
Consciência.
O que antes era ruptura
se tornou desenho,
obra de arte.
Não sou mais o que fui –
ainda bem –
porque o que hoje existe
não é remendo.
É construção.
Há valor onde houve queda.
Há brilho onde houve dor.
E o que um dia foi frágil,
agora se sustenta
com algo que não existia antes de se partir.
Hoje, quando olho,
não vejo o que quebrou.
Vejo ouro.
Vejo permanência.
Vejo um coração
que não voltou ao que era,
e que, ainda assim,
se sustenta.
