Domingo amanhece com teu cheiro, um perfume leve de sol na pele, como se o dia inteiro fosse feito para te encontrar.
Tem gosto de beijo lento, daqueles que não têm pressa, que sabem exatamente onde morar na boca do outro.
Tem abraço que encaixa, que fecha o mundo lá fora e abre um lugar secreto onde só cabem dois.
Tem lugares que viram nossos, mesmo que sejam simples: a varanda, a rua vazia, a sombra de uma árvore qualquer. Tudo ganha brilho quando tua lembrança passa por ali.
E tem o tempo — esse velho teimoso — que no domingo parece aprender a caminhar no ritmo do amor, sem urgência, sem medo, só com vontade de ficar.
Porque algumas lembranças não doem, não pesam, não partem. Apenas aquecem. E as tuas, meu bem, aquecem como sol de fim de tarde.
Como um móvel esquecido numa casa que ainda guarda calor, mas que já não sustenta presença.
O que se perde antes é a delicadeza de reconhecer o outro como território, como extensão: um mapa mínimo, íntimo, que se dobra, se fecha, e deixa de ser lido.
É esquecido.
De repente, você fala e a sua voz não pousa.
Paira.
Não há queda, nem choque, só um deslocamento lento das coisas, como se o mundo, exausto, desaprendesse o equilíbrio de dois.
O amor, então, persiste por debaixo, quase brasa sob cinza. Mas amar sozinho é um silêncio com memória: isso pesa, dói.
Há um instante — quase cego — em que você se percebe menor, ajustando arestas, apagando excessos, pisando em ovos para caber no resto.
E é ali, nesse quase nada, que algo insiste: não é orgulho, não é dor nem fúria: é precisão. Uma lembrança exata de quem você é quando inteiro.
E isso não se negocia.
Ir embora não rompe o que houve: expõe a falta do que sustentava.
Porque há amores que continuam mesmo depois de esquecidos no corpo do outro, mas nenhum atravessa o tempo sem o mínimo gesto de reconhecimento.
Então você fecha a porta devagar, como quem ainda alinha os objetos antes de sair.
(não se quebra o que fica)
E depois, sem anúncio, já em outra paisagem, o corpo se refaz: aprende de novo o espaço, a medida, o direito simples de existir inteiro.
E, pouco a pouco, sem que se perceba, o mundo volta a oferecer passagem.
Não é o mesmo gesto. Não é o mesmo nome.
É apenas isso: alguém que sustenta o olhar – e fica.
Há uma falta em mim que não se explica, e que eu ainda não soube afastar. Vive no gesto mais simples que fica, quando tento seguir, mas volto a lembrar.
Ainda te encontro em coisas mínimas, num gesto breve, num jeito de rir. E algo em mim, nas horas mais íntimas, insiste em silêncio em te repetir.
Não digo teu nome – quase não preciso – ele acontece em mim, sem chamar. E sigo assim, entre o que não foi dito, e o que ainda não soube calar.
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