Avatar de Desconhecido

Sakura

Sob a flor de cerejeira,
o tempo não pesa: flutua.

As pétalas caem sem drama,
como quem aceita partir
antes mesmo de ficar.

E ali, entre um sopro e outro,
você existia:
leve,
inteira,
quase impossível de nomear.

Havia algo no seu olhar
que não pedia futuro: apenas presença.

Como as sakuras:
breves,
delicadas,
inesquecíveis não por durarem,
mas por acontecerem.

E eu,
entre a queda de uma pétala
e o silêncio seguinte,
entendi:

Alguns encontros
não são feitos para permanecer,
mas para florescer dentro.

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Rábico

Raiva acesa:

perco o fio do sentido,

falo e me desfaço.

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Enquanto éramos só nós

Às vezes o vento entra pela casa

sem pedir explicação:

toca o vidro,

move a cortina,

e passa pela mesa

como se já soubesse o caminho.

.

O vinho ainda gelado,

a luz pousada no chão,

os passos que se entrelaçam,

e dançam no pulsar do coração.

.

Ali, tudo acontece sem nome,

sem definição –

e é por isso que acontece.

.

Mas, quando esse mesmo vento

encontra as janelas fechadas,

e as cortinas impedem

a entrada da luz,

a casa muda.

.

Os passos perdem o ritmo,

o ar pesa,

e o que antes fluía

começa a endurecer.

Porque, no encontro,

não cabia explicação alguma –

e nem precisava haver.

.

Era só isso:

duas almas

respirando

o mesmo ar,

sem precisar de nada

que os corpos não possam dizer.

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Reverbera

Na cozinha ainda tem você.

Não em corpo,

Mas no espaço que ficou.

.

O copo, o gesto, a presença que parecia casa.

.

Havia algo ali – simples, suficiente.

E agora não há mais nada acontecendo,

Mas tudo ainda reverbera em mim.

.

Não foi você quem ficou:

Foi o que eu senti ao seu lado

E que ainda respira por aqui.

.

E dói.

.

Talvez não fosse para ser.

Talvez…

Mas, por alguns instantes,

Pareceu inteiro,

Pareceu verdadeiro.

Pelo menos para mim.

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Multiversos

Cabe tudo:

o não dito

expande.

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No mesmíssimo mar

Olho para as amendoeiras:

Há quantos anos estão aqui?

Ainda o mesmo mar.

.

Na calçada os amigos passam,

Um senhor vende seus livros,

Sempre o mesmo mar.

.

Uma conversa apressada,

Um café com broa quente,

Outra vez o mesmo mar.

.

Aonde se esconde a novidade?

Só sei que continuo a buscá-la

No mesmíssimo mar.

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Vestígios

Entre cartas antigas,

Descansam sopros de vida,

Papéis que ainda guardam

O calor de mãos ausentes.

.

A tinta, já um pouco desbotada,

Sussurra palavras que não envelhecem,

Feito promessas suspensas

No fio delicado da memória.

.

E ali, entre dobras amareladas,

Repousam as fotografias:

Janelas silenciosas do passado,

Onde o tempo se esqueceu de ir embora.

.

Rostos presos em um instante,

Olhares que ainda falam,

Sonhos e sorrisos congelados no ar,

Ecoando pela eternidade.

.

Cartas e fotografias

Adiam e permeiam o tempo:

Quer seja na trama das palavras,

Ou nas imagens de sepulcral silêncio.

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Deságua

Fé na corrente:

o rio não escolhe o mar,

mas nele chega.

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Calor

Colo que acolhe –

o mundo em ruído some

no calor dos seios.

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No outro

Sombra no espelho –

o que nego em mim mesmo

ganha outro rosto.