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Podcast 13: Amor, busca e mistério

Pip: Agora Babou de volta, e Fabio Ottolini chegou com muita coisa para dizer sobre amor, sobre o que nos move por dentro, e sobre o que a xícara de café guarda no fundo.

Mara: Exatamente. Vamos passar por três territórios: o amor como ação e encontro, a busca interior e o peso de enxergar o que os outros não veem, e o cotidiano como lugar de sentido. Começa pelo amor.

Amor como ato e encontro

Pip: O que é o amor, afinal — sentimento, declaração, ou alguma coisa que só existe quando você faz alguma coisa com ela?

Mara: Em “Em busca da verdade”, a resposta vem assim: “O amor se retroalimenta de coisas pequenas, da intimidade, da cumplicidade, da atenção aos mínimos detalhes, da generosidade e da sinceridade, da desavença e do entendimento, do perdão, da compreensão.”

Pip: Então o amor não é o gesto grandioso. É o tecido miúdo do dia a dia — e quando esse tecido se desfaz, não sobra muito.

Mara: “No ato” vai direto nessa direção: “por que amar é como fazer, nada é feito sem ato.” Amar sem agir não conta. E “Brilho que arde” coloca o encontro como colisão — dois mundos que se chocam e saem mais vivos.

Pip: “O chamado” fecha esse arco de forma bonita: ninguém planejou o encontro, ninguém chamou de propósito. O universo simplesmente conspirou.

Mara: Próximo passo: o que acontece quando você enxerga coisas que ninguém mais quer ver.

Cassandra e a busca interior

Pip: Tem uma tensão difícil em perceber verdades antes da hora — e carregar isso sozinho.

Mara: “Cassandra” nomeia exatamente isso: “a maldição de Cassandra nunca foi conhecer o futuro. Foi perceber a ausência quando ela ainda se chamava esperança.”

Pip: Saber o que vem aí e não conseguir que ninguém ouça. Isso não é dom, como o poema diz — é peso.

Mara: “Exaustão” chega no limite disso: quem busca luz por tanto tempo que já não quer mais luz, só descanso. E “Mapas” mostra a virada — aves, marés, faróis, nenhum sinal externo resolve. Só a coragem de falar.

Pip: “Escavação” diz o mesmo de outro ângulo: cada pergunta remove terra, e quem passa julga inútil. Mas não se procura terra — procura-se água.

Mara: “Meu maior defeito” inverte o peso todo: ver beleza em absolutamente tudo, até na falha, até no fim. E “A última prece” fecha com fé e dúvida lado a lado — paz de ter tentado, tristeza de não ter conseguido, e a esperança de que esperança não seja engano.

Pip: Do peso de enxergar demais para o peso de existir no dia a dia — que também tem os seus segredos.

O cotidiano como lugar de sentido

Pip: Às vezes o sentido não está no grande gesto — está na xícara, na chave perdida, no gole de vinho no silêncio.

Mara: “Fumegante” abre com isso: “xícara fumega, o aroma desperta memórias antigas. No fundo, a borra escura guarda o que o dia esconde.”

Pip: A borra escura como arquivo do que não foi dito. Elegante.

Mara: “Pequena metafísica doméstica” expande: as paredes esquecem, os livros acumulam poeira, e nós atravessamos tudo imaginando que somos diferentes — até achar um bilhete esquecido entre páginas. “No silêncio do gole” fecha o ciclo com o vinho que deslaça a alma.

Pip: Três objetos, três formas de parar o tempo por um instante.


Mara: Amor que se faz em atos, verdades que ninguém quer ouvir, e o cotidiano que guarda mais do que parece.

Pip: Tudo isso no mesmo Agora Babou. Até a próxima.

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Podcast 12: Memória, amor e espelho

Pip: Agora Babou, onde a poesia e a prosa se recusam a ir dormir cedo.

Mara: Neste episódio, mergulhamos nos textos de Fabio Ottolini — amor e intimidade, as marcas que a ausência deixa, e o que encontramos quando nos olhamos no espelho.

Pip: Território familiar e desconfortável ao mesmo tempo.

Mara: Exatamente o lugar onde esses textos vivem. Vamos começar pelo amor.

Entre a pele e a memória

Mara: O tema aqui é o amor em suas formas mais físicas e persistentes — o desejo que não se apaga, a presença que o corpo reconhece mesmo quando a mente tenta esquecer.

Pip: O poema "Entre a pele e a memória" coloca isso com precisão: "Teu nome repousa na curva dos meus desejos como um segredo. Quanto mais tento esquecê-lo, mais se aproxima de mim."

Mara: O nome amado não é só lembrança — é algo que cresce com a resistência. Tentar esquecer é, paradoxalmente, aproximar.

Pip: "Chama despida" leva isso para o corpo em chamas, e "Teu abraço" vai na direção oposta — não o fogo, mas a paz. "Em teus braços, não preciso escolher entre abrigo e fogo. Encontro ambos."

Mara: E "Ardo inteiro" fecha o arco com uma declaração quase teimosa: amar mesmo quando o fogo é só seu.

Pip: Do segredo que não some ao incêndio solitário — é um espectro inteiro. O que fica é o quanto a memória e a ausência andam juntas nesses textos.

O que a memória guarda e o que ela apaga

Mara: Este segmento vive numa tensão: há presenças que o tempo não consegue apagar, e há vazios que nunca foram preenchidos para começar.

Pip: O poema "Nada" corta direto: "No silêncio da memória, restou em mim apenas nada." Cinco linhas. O título já é a resposta.

Mara: E o que torna isso pesado é o contexto que os outros textos constroem ao redor. "Perene" fala de pessoas que habitam um território que nunca pertenceu inteiramente ao sim nem ao não — presenças que continuam ecoando não pela perfeição, mas porque nos obrigam a olhar para dentro.

Pip: Enquanto "Nada" esvazia, "Perene" insiste em permanecer. Os dois poemas são quase opostos no gesto.

Mara: "As conversas que nunca tivemos" vai fundo nisso — a bisavó que viveu noventa e seis anos, e a percepção de que "cada pessoa carrega dentro de si uma biblioteca inteira." A maioria de nós lê só alguns capítulos.

Pip: Há uma crueldade silenciosa nisso. Não por má vontade — por ingenuidade de achar que o depois vai chegar.

Mara: "As vidas que não vivemos" expande a mesma lógica para dentro: o músico que quase existiu, o professor que não fomos. Viktor Frankl aparece ali — "O homem não é apenas o que é, mas também aquilo que poderia ter sido."

Pip: E "Os acolhimentos que nunca recebemos" nomeia a ferida mais difícil de reconhecer — a saudade de algo que nunca chegou a existir. Um elogio. Um pedido de desculpas. A frase que nunca veio.

Mara: "A pessoa por detrás da tempestade" oferece o contraponto mais suave: a voz que ressurge numa ligação, lembrando que algumas presenças nunca desaparecem completamente.

Pip: Do vazio que o vento levou ao céu que por alguns minutos se abre. Agora, o que acontece quando viramos esse olhar para nós mesmos.

O que o espelho devolve

Pip: A questão aqui é sobre reconhecimento — ou a falta dele. Quem é o homem que nos olha de volta, e por que às vezes parece um estranho?

Mara: O poema "O mesmo" é direto: "Encontro o homem do espelho todos os dias. Já soube seu nome. Já soube seus sonhos. Hoje nos observamos com a cautela de dois estranhos tentando descobrir em que momento deixaram de se conhecer."

Pip: Isso é desconfortável de uma forma muito específica. Não é crise — é deriva. A estranheza que chega devagar.

Mara: "O homem do espelho" aprofunda: talvez a demora nas respostas não seja culpa do reflexo, mas da falta de coragem para formular as perguntas certas. O obstáculo é interno.

Pip: E "O que precisa ser" propõe que amar é primeiro tentar entender — que sem diálogo, sem escuta, perdemos caminhos que só a palavra podia mostrar.

Mara: "O Olho de Vidro" desloca o olhar para a câmera — a lente que captura o que o peito esconde, o instante que o corpo entregou. Uma forma diferente de revelar.

Pip: Enquanto "O Ponto de Luz" vai na direção contrária: olhar para fora, para uma janela distante, e lembrar que o mundo é muito maior do que as histórias que conhecemos.

Mara: Identidade construída de dentro e de fora. O espelho e a janela, ao mesmo tempo.


Pip: Amor que persiste, memórias que faltam, espelhos que desconcertam — é um episódio que não resolve muito, mas pergunta bastante.

Mara: Que é exatamente o que a boa poesia faz. Até a próxima.

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Podcast 11: Pequenas eternidades cotidianas

Pip: Agora Babou é daqueles lugares onde você abre um texto esperando um parágrafo e sai com uma pergunta que vai durar a semana inteira.

Mara: É por isso que vale a pena passar por aqui. Fabio Ottolini publicou uma série de textos recentes que circulam entre memória e permanência, coragem e identidade, e o peso silencioso das coisas comuns. Vamos começar pelo que fica — e pelo que o amor, mesmo inteiro, não consegue alcançar.

Memória, Presença e Permanência

Pip: O território desse bloco é o que resiste ao tempo — não os grandes marcos, mas o que a memória escolhe guardar por conta própria, sem avisar.

Mara: Em "O que permanece", o ponto de partida é esse: "Há caminhos que o amor percorre, mas há portas que o amor não abre."

Pip: O que isso coloca em cena não é a falta de amor, mas o limite dele. Amar com tudo não garante chegada. Algumas distâncias são maiores do que o alcance dos braços.

Mara: "As pequenas eternidades de um dia comum" desenvolve esse mesmo eixo por outro ângulo — a memória não guarda o extraordinário, guarda o que parecia insignificante. Um café sem pressa. A luz da manhã. Uma conversa que se prolongou além do necessário.

Pip: E aí está o paradoxo: a felicidade raramente anuncia sua importância. Só reconhecemos o instante depois que ele foi.

Mara: "Eixo do instante" comprime isso em cinco linhas — prioridades como pontes entre o ser e o tornar-se. E "O vento sabe" carrega a mesma solidão de outra forma: o vento sabe o nome, mas ninguém o pronuncia.

Pip: Casa acesa, sombras na janela, e nenhuma entrada. Presença e ausência no mesmo quadro.

Mara: O que une esses textos é a ideia de que alguns momentos pertencem tão completamente ao instante em que aconteceram que nenhuma repetição reproduz o significado. O tempo leva quase tudo — mas algumas manhãs permanecem.

Pip: E da permanência do instante, chegamos a uma pergunta mais difícil: quem você é quando ninguém está olhando?

Coragem, Escolha e Identidade

Mara: Esse bloco gira em torno do que nos define — não as conquistas declaradas, mas as escolhas feitas sem plateia.

Pip: "Inevitavelmente" coloca isso de forma direta: "O que nasce das tuas escolhas quando não há ninguém te observando? Este é, inevitavelmente, quem tu és."

Mara: Sem margem de negociação. Identidade não é narrativa, é conduta privada.

Pip: "Quase…" trabalha o outro lado disso — a vida vivida com entrega total que ainda assim termina zero a zero. A bola beijou a trave. O jogo acabou.

Mara: E "Coragem e vulnerabilidade" argumenta que se mostrar quebrado exige mais do que se mostrar forte. Revelar a própria dor é um ato de confiança — uma forma de dizer "você importa o bastante para que eu lhe mostre quem sou quando não estou forte."

Pip: Não é fraqueza. É a aposta mais cara que existe.

Mara: "De novo, talvez" fecha o ciclo com a incerteza que atravessa tudo isso — uma moeda arremessada, cara ou coroa, sem garantia de resultado. Escolher mesmo assim é o que define.

Pip: Do que nos define, passamos para o que nos ancora — as coisas que ficam paradas no lugar enquanto a vida passa correndo.

O Valor do Comum

Mara: O que esse bloco propõe é uma reabilitação do ordinário — a ideia de que o extraordinário mora justamente onde não fazemos alarde.

Pip: "O mistério das coisas comuns" diz isso com precisão: "Talvez o extraordinário não esteja nas grandes descobertas, nem nos horizontes distantes. Talvez more justamente nas pequenas coisas que repetem o seu ofício sem imaginar que alguém as observa."

Mara: O relógio que não atrasa da própria vida. A cadeira que ainda aguarda quem já partiu. A vida passa depressa não por falta de tempo, mas porque quase nunca paramos para escutar o silêncio das coisas comuns.

Pip: "Abrigo e luz" reduz isso a dois versos: há gestos que mudam vidas sem saber que o fizeram. O gesto não precisa se saber importante para ser.

Mara: E "Sashimi" chega pelo lado sensorial — desejo cru, presença física, dois corpos que não sabem ou não querem fugir do que sentem. O comum aqui é o pulso, o olhar, o silêncio que cobra.

Pip: Três formas de dizer a mesma coisa: preste atenção no que está na sua frente.


Mara: O fio que atravessa tudo isso é a atenção — ao instante, à escolha, ao gesto que passa despercebido.

Pip: Fácil de entender, difícil de praticar. Até a próxima vez que o Agora Babou nos lembrar de novo.

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Podcast 10: Amor, Tempo e Silêncio

Pip: Agora Babou chegou com a semana toda em verso — amor que queima, saudade que não envia carta, e uma reflexão sobre o que a gente faz com o tempo que sobra.

Mara: Fabio Ottolini assina tudo isso. Passamos por chamas e companhia, por ausência e escuta, e chegamos numa pergunta sobre autonomia e tempo que é bem mais urgente do que parece.

Pip: Vamos começar pelo fogo.

Amor em brasa: chama, luz e companhia

Mara: Este segmento reúne poemas que exploram o amor como intensidade — não um sentimento passivo, mas algo que arde por conta própria, que ilumina e que, com o tempo, vira presença constante.

Pip: E o poema “Eu ardo” deixa isso explícito logo de cara. O verso é direto: “Não acendo por pedido, não apago por ausência. Sou carne em brasa, sou pulso que ruge, sou presença que rasga o escuro mesmo quando não sou visto.”

Mara: O que isso diz, na prática, é que o amor aqui não depende de reciprocidade para existir. Ele não é negociado — ele simplesmente é.

Pip: Amor como estado, não como contrato. Bem menos reconfortante para quem gosta de cláusulas.

Mara: “Incêndio” segue essa linha — o peito desperta nos braços do outro, e o amor se revela “vasto como um céu em brasa”. É a mesma chama, mas agora ela tem endereço.

Pip: E “Luz” chega depois, como consequência natural: depois da chama, permanece a claridade. Nada se perde.

Mara: “Lado a lado” é onde o arco chega. Já não é chama, nem claridade apenas — é companhia. “Teu passo ao lado do meu, e o mundo encontra abrigo.” A intensidade amadurece em algo mais quieto.

Pip: Do incêndio ao abrigo. Faz sentido como sequência de vida.

Mara: A saudade que fica quando esse abrigo some é exatamente o que vem a seguir.

Carta não enviada: ausência que não parte da alma

Mara: “Carta não enviada” parte de uma música triste — e entrega à altura. O poema descreve o amor que não coube nos planos de ninguém, e uma imagem resume tudo: “Meu coração é um hotel abandonado: corredores longos, quartos sem hóspedes, um piano coberto de poeira esperando mãos que não voltam.”

Pip: Essa metáfora do hotel não deixa escapatória. É abandono com arquitetura.

Mara: E a conclusão do poema é o que sustenta o segmento inteiro: há pessoas que partem da nossa vida, mas demoram muito mais para partir da nossa alma.

Pip: “O canto silencioso” traz outra forma de ausência — não de quem foi, mas de quem ainda não se revelou completamente. É um poema de escuta, de querer decifrar o outro antes que ele fale.

Mara: Os dois poemas tratam de espera, mas em direções opostas: um olha para o que ficou, o outro para o que pode vir. O silêncio é o mesmo; o que ele guarda é diferente.

Pip: E quando o silêncio passa, sobra a pergunta do que fazer com o tempo que ele ocupava.

Sobre o tempo e ser dona de si

Pip: “Sobre o tempo” não é poema — é uma reflexão em prosa que questiona algo que a gente repete sem pensar: que o tempo resolve as coisas.

Mara: O texto usa a metáfora do jardim e é preciso aqui: “O tempo tem a capacidade de amadurecer os caminhos que escolhemos, mas não de escolher por nós.” O tempo acompanha; a coragem de semear é nossa.

Pip: E essa conclusão vem de experiência concreta — a perda de um irmão aos oito anos, uma bisavó que chegou aos noventa e seis. A vida não distribui tempo com critério nenhum.

Mara: “Dona de Si” chega como resposta prática a essa urgência. Se o tempo não espera, a mulher que escolhe o próprio rumo não pode esperar aprovação. O poema diz: “quem ama não dita caminhos para quem quer ser feliz.”

Pip: Autonomia como ato, não como declaração. Os dois textos dizem a mesma coisa por caminhos diferentes.


Mara: Chama, saudade, tempo e escolha — a semana no Agora Babou foi densa.

Pip: Densa e honesta. Na próxima, a gente vê o que o fogo deixou quando a fumaça baixar.

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Podcast 09: Laços, silêncios e delicadezas

Pip: Agora Babou voltou com poesia que cheira a café, carrega flores sem destino certo e navega em mar aberto — tudo isso ao mesmo tempo.

Mara: Fabio Ottolini assina tudo o que vamos ouvir hoje: textos sobre afeto e cuidado, sobre silêncio e travessia, e um pouquinho de domingo com sol nas janelas. Vamos começar pelo que pulsa mais fundo — o amor que permanece mesmo quando a vida impõe distância.

Afeto, cuidado e presença

Mara: Este segmento gira em torno de uma pergunta simples e difícil: como o afeto sobrevive quando não pode ser entregue pessoalmente?

Pip: O poema "Vó Maria" abre com uma resposta sensorial. O aroma da memória é o texto inteiro, e o verso que o ancora é este: "Hoje o aroma insiste em voltar, como quem sabe onde quero morar."

Mara: A saudade aqui não é melancolia paralisante — é bordado, é construção. O cheiro do café e do bolo de fubá reconduz a um lugar afetivo que nunca fechou.

Pip: "O que as flores sabem" leva essa ideia para outro registro — mais irônico, mais vulnerável. Flores compradas, mãos que tremem, e a oferta de deixá-las com o vizinho ou com Seu Roberto caso a entrega direta não seja possível.

Mara: O poema diz: "Elas falam do que sinto e não do que sentes." É uma distinção honesta — o gesto é do emissor, não uma garantia de reciprocidade.

Pip: "Delicadeza" radicaliza isso com o beija-flor: chega, paira, toca e parte. Sem posse, sem promessa. A flor não tenta prendê-lo.

Mara: E "Lealdade e devoção" traz a distinção mais desenvolvida do conjunto: "A devoção pergunta: quando nos veremos? A lealdade sabe dizer: quando for possível."

Pip: Permanência sem cobrança. É uma definição exigente.

Mara: "E eu já te vi sofrer tanto…" fecha o tema com compaixão direta: a dor do outro encontra passagem no próprio corpo de quem cuida. Cinco textos, uma só pergunta sobre como se ama sem prender.

Pip: Esse cuidado sem posse aparece também quando a linguagem falha — que é exatamente onde vamos agora.

Silêncio, palavra e travessia

Mara: Aqui o tema é o que acontece quando as palavras chegam ao limite — ou quando a pessoa percebe que virou ponte, mas queria ter sido caminho.

Pip: O haiku "Entre" abre com leveza: "Portas abertas, o vento traz teu perfume, tarde vazia." Presença sentida, pessoa ausente.

Mara: "Quando a palavra cai" vai direto ao ponto: "Silêncio não é quando não se fala. É quando a palavra não mais alcança." É uma definição precisa — o silêncio verdadeiro é falha de alcance, não ausência de som.

Pip: E "Mar aberto" traduz isso em exaustão navegada: "Ando cansado de ajustar minhas velas, cansado de reaprender rotas, de chamar de esperança aquilo que tantas vezes foi apenas espera."

Mara: O peso não é a mudança dos ventos — é navegar sozinho. "Quero ser caminho" responde com orgulho e tristeza juntos: ser ponte é nobre, mas a ponte não segue viagem. O que se quer é fazer parte da jornada, não apenas conectar destinos alheios.

Pip: Do mar agitado para algo bem mais leve — um domingo com sol nas janelas.

Domingo canta

Mara: Para fechar, um respiro: "Domingo canta" é um haiku curto e deliberadamente aberto — "O dia abre os braços e a vida dança leve."

Pip: Depois de tanta profundidade, o domingo simplesmente dança. Sem explicação.

Mara: É o contrapeso necessário. Leveza também é uma escolha de linguagem.


Pip: Afeto sem posse, silêncio que não alcança, domingo que dança — tudo isso junto forma um mapa de como se habita o tempo com os outros.

Mara: E na próxima vez, veremos onde esse mapa leva.

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Podcast 08: Tempo, perda e renascimento

Pip: Agora Babou, onde até o sol se pôr vira matéria de filosofia — e, honestamente, com razão.

Mara: Fabio Ottolini publicou uma série de textos que circulam em torno de três territórios: o que o tempo leva e o que insiste em ficar, a reconstrução depois do que se partiu, e o afeto que reconhece sem precisar ser perfeito.

Pip: Vamos começar pelo luto e pelo que permanece.

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O que o tempo leva — e o que fica

Mara: A questão que atravessa esses textos é esta: o que sobrevive quando o tempo passa e não cura nada sozinho? O que fica de nós, e o que vai embora sem avisar?

Pip: "Hoje" coloca isso em poucas linhas. O poema diz: "Alguma coisa em mim continuou indo embora. Outra, finalmente, ficou."

Mara: É uma distinção precisa — não há resolução, só coexistência. Algo parte, algo permanece. O luto não termina; ele se divide.

Pip: "Herança" desenvolve isso com outra camada: não são os anos que a vida leva, são os instantes. Os minutos discretos, como moedas esquecidas no fundo dos bolsos.

Mara: E "Fotografia" condensa essa ideia visualmente — a imagem desbota aos poucos, o tempo leva as cores mas não escolhe o que mostrar.

Pip: Já "A persistência dos mortos" empurra o argumento para um lugar mais duro: estrelas mortas ainda nos iluminam. A luz também se corrompe, e mesmo assim persiste.

Mara: "O céu sabia" fecha o círculo com a mesma imagem — as estrelas não estavam chegando. Estavam esperando. A permanência como presença silenciosa, não como vitória.

Pip: Falar em permanência leva direto à pergunta seguinte: o que se faz com o que sobrou depois que tudo se partiu?

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Reconstruir depois dos escombros

Mara: O tema aqui é o que vem depois da destruição — não a cura automática, mas a escolha ativa de fazer algo com os dias que restam.

Pip: "Depois dos escombros" é direto: "O tempo não cura. O tempo apenas passa. Quem cura é o que fazemos com os dias que ele nos entrega."

Mara: O que isso significa na prática é que reconciliação não é esquecimento nem pressa. O texto fala em raízes que aprendem a aprofundar, não em tempestades que não deixam marcas.

Pip: "Sementes" leva essa ideia adiante — das promessas que ruíram, se fazem sementes. O que se quebra também abre espaço para o que nasce.

Mara: E "Eu não soube desfazer teus medos" complica o quadro: há feridas que não cedem só porque foram amadas. Certos abismos já estavam lá antes de qualquer encontro.

Pip: Reconstruir, então, exige reconhecer o que veio antes de você — e o que ficou mesmo assim. Que é exatamente onde o afeto entra.

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Afeto que reconhece sem julgar

Mara: Esses textos perguntam como o afeto sobrevive à imperfeição — como duas pessoas se reconhecem depois de terem sido também parte dos escombros uma da outra.

Pip: "Entre o que foi dito" coloca assim: "Talvez amar, às vezes, seja deixar de procurar culpados. E apenas reconhecer que houve duas pessoas tentando sobreviver com os recursos que tinham."

Mara: O que isso abre é um perdão sem tribunal — não porque a dor não existiu, mas porque carregar culpa demais é outra forma de continuar preso ao passado.

Pip: Os dois poemas "Resposta" e "Resposta (2)" trabalham o outro lado disso — a espera, a pergunta sobre o lugar que se ocupa no outro, a lembrança que atravessa os dias sem pedir licença.

Mara: E "O que me acha" vira o ângulo: às vezes o que não se procura é o que devolve a si mesmo. Um brilho quieto que alguém percebe enquanto outro ignora.

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Pip: Tempo, ruínas, afeto — três formas de perguntar a mesma coisa: o que fazemos com o que não escolhemos perder?

Mara: E o que fica como resposta, nos textos todos, é que a permanência não é ausência de perda. É o que cresce nas rachaduras.

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Podcast 06: Amor, Falta e Entrega

Pip: Agora Babou chegou esta semana com poesia que não pede licença — entra, ocupa, e recusa sair.

Mara: Os poemas cobrem território bem definido: a entrega total ao outro, a dor física da ausência, e as feridas que aprendem a se esconder. Vamos começar com o que acontece quando alguém se rende de vez.

Entrega e desejo

Pip: A pergunta que abre este bloco é simples e assustadora: o que acontece quando você para de se defender do amor?

Mara: "Rendição" responde sem hesitar — "há em mim essa entrega crua, exposta — um querer que não se contém, que não pede razão."

Pip: Sem razão, sem recuo, sem volta. A entrega descrita ali não é escolha — é reconhecimento de que a resistência já não faz sentido.

Mara: E o poema vai além: o outro não é abrigo, mas "mundo vasto onde me perco, onde me encontro." Esse é o mesmo território que "Mundo vasto" condensa em três linhas — perder-se para encontrar o nós.

Pip: "Febril" pega essa mesma febre e mostra o lado noturno: o eco que rompe madrugadas sem aviso, o corpo que cede mas a mente permanece desperta. É o mesmo amor, outra temperatura.

Mara: "Domingo, fim de tarde" traz o contraponto mais suave — o cheiro do outro no amanhecer, o beijo sem pressa, o tempo aprendendo a caminhar no ritmo do amor.

Pip: E então "Todos" brinda pelos dias inesquecíveis — inclusive os passados sem a pessoa amada. Memória como forma de posse.

Mara: "Até" fecha o ciclo com a promessa mais longa possível: tudo, até o dia da morte — e o que está no meio são só reticências. O silêncio faz o trabalho.

Pip: Quando o amor é assim absoluto, a ausência não some — ela muda de forma.

Ausência e saudade

Mara: Este bloco pergunta o que resta quando a presença vai embora — e a resposta não é vazio, é ardência.

Pip: "Ausência viva" não deixa dúvida: "tua falta arde pelas frestas da madrugada — meu corpo vigia."

Mara: Vigiar sem objeto. "Calor em suspenso" estende isso para uma cena inteira: o vinho intocado, o frio entrando devagar nos espaços onde havia cheiro e cor, e a pergunta que não se cala — por que precisa esfriar e ainda assim não acontecer?

Pip: "Distante" adiciona a dimensão do tempo perdido: não deu tempo de olhar nos olhos, e coube uma eternidade num único instante. A aquarela cuidadosamente pintada virou quadro borrado.

Mara: Ausência que arde, calor que não chega, distância que não se escolheu. O próximo passo é entender o que essas feridas fazem por dentro.

Feridas e vulnerabilidade

Pip: Há uma pergunta incômoda aqui: e se a superfície calma for exatamente onde a fratura é mais funda?

Mara: "Entre Ruídos" nomeia o mecanismo: "um cuidado que se traveste de zelo, mas que não ajuda — separa." Vozes que não chegam como palavra, chegam como desvio.

Pip: O dano invisível. "Quebrado" aprofunda isso — feridas que aprendem cedo a se esconder na pele aparentemente intacta, e quem aprende a sorrir onde mais arde.

Mara: "Ainda" responde com algo raro: não culpa, mas reconhecimento. Há momentos em que se pesa quando bastava tocar mais leve. E mesmo assim, o que é verdadeiro entre dois permanece intocável.

Pip: Três poemas, uma conclusão: o que não sangrou não está necessariamente inteiro.


Mara: Entrega sem defesa, ausência que arde, feridas que se escondem — o amor aqui nunca é simples.

Pip: Não. É febre, é vertigem, é queda — e ainda assim é onde se descansa. Semana que vem, mais Agora Babou.

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Podcast 01: Silêncios, Afeto e Travessia

Pip: Agora Babou publica poesia curta — às vezes tão curta que o silêncio entre as palavras pesa mais do que elas.

Mara: É exatamente esse silêncio que organiza o episódio de hoje. Vamos passar pelo que fica invisível, pelo que aproxima, e pelo que acontece quando alguém para no meio do caminho e decide existir nessa pausa. Começamos pelo inventário do que se cala.

Silêncio e Invisibilidade

Mara: O território aqui é o silêncio como transformação — não ausência, mas uma forma nova de estar. A pergunta que esses poemas fazem é: o que acontece com quem aprende a não ser visto?

Pip: “O inventário do silêncio” coloca isso em termos precisos: “Não é o fim da estrada que vejo, mas o fim de um modo de andar.”

Mara: Ou seja, não é ruptura — é mudança de passo. O silêncio não encerra nada; ele recalibra quem caminha. Isso muda o peso da palavra invisibilidade.

Pip: “Conciso” leva essa ideia ao limite: uma voz que parou de explicar o mar a quem teme a água. Cansaço como decisão, não como derrota.

Mara: E “Supondo que…” vira o ângulo: “Se eu for embora, ninguém vai perceber — não sei se isso é uma maldição ou um super poder.” A ambiguidade é o ponto.

Pip: Invisibilidade como armadura. Não é exatamente o que o manual de autoajuda recomenda, mas funciona.

Mara: “Invisível” e “O reflexo” fecham o segmento no registro do haiku — pedra no bolso atravessando a tarde inteira, um copo d’água refletindo o escuro. Imagens pequenas, peso considerável.

Pip: Do silêncio que pesa, passamos ao que chega perto.

Amor e Proximidade

Mara: O tema aqui é a intimidade que existe no gesto comum — o que dois corpos carregam um para o outro sem que ninguém ao redor precise saber.

Pip: “Almas enamoradas” diz diretamente: “Entrelaço minhas mãos nas tuas, no meio da rua, em todo e qualquer lugar — e quem nos vê não sabe que este entrelaçar são nossas almas a namorar.”

Mara: O público não tem acesso ao que realmente acontece. A intimidade sobrevive exatamente por isso.

Pip: “Aproximação” captura o instante antes do toque — “o ar entre nós desperta, quase um toque.” E “Renascer” e “No peito” chegam pelo lado da força: sonhos rasgando o medo, o peito que renasce pela luz.

Mara: Amor como reconstrução, não só como encontro. Essa travessia interna é o que vem a seguir.

Travessia Interior

Pip: O segmento mais denso do episódio trata de quem está entre dois lugares — sem mapa, sem resposta, mas ainda em movimento.

Mara: “Melífluo” nomeia esse estado com cuidado: “nesse intervalo incerto, não saber também é um lugar onde, aos poucos, eu existo.”

Pip: Existir na dúvida como prática. Não resolver, não escapar — habitar o intervalo.

Mara: “Em casa” e “Passo a passo” chegam por caminhos opostos: o caracol que se recolhe na chuva encontra paz num cômodo; o chão irregular se resolve passo a passo, sem mapa algum. Dois modos de atravessar.

Pip: E “Vazias” coloca os dois lados numa mesma mesa — literalmente duas garrafas de vinho: uma para reclamar do que falta, outra para agradecer pelo que há. Ambas terminam vazias.

Mara: A simetria é o ponto. Reclamação e gratidão consomem exatamente a mesma quantidade de você.

Pip: “Batismo” limpa o rastro do medo e sai andando soberano. “Gravidade” é mais oblíquo — Marte aceso sob a luz fria da lua. E “Artemisia absinthium” fecha com o conselho mais direto do episódio.

Mara: “Preciso confiar mais no meu instinto: menos amor, mais absinto.” Instinto como bússola, mesmo que a rota seja discutível.


Pip: Silêncio, proximidade, travessia — tudo aqui mora no intervalo entre o que se sente e o que se diz.

Mara: E esses poemas insistem que o intervalo não é vazio. É onde algo acontece. Até o próximo episódio.