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Lealdade e devoção

Durante muito tempo, pensei que lealdade e devoção fossem a mesma coisa.

Hoje, percebo que não.

A devoção é movimento. Ela nos faz atravessar distâncias, iniciar conversas, fazer convites, imaginar futuros e construir pontes. Existe algo de belo nela: a capacidade de se dirigir ao outro com o coração aberto, sem economizar presença.

A lealdade, porém, parece nascer em outro lugar.

Ela não depende da proximidade. Não depende da frequência das mensagens, dos encontros ou mesmo da reciprocidade imediata. A lealdade é a decisão de continuar desejando o bem de alguém sem transformar esse desejo numa exigência.

Talvez eu tenha confundido os dois conceitos.

Muitas vezes, quando buscava aproximação, acreditava estar sendo leal. Mas talvez estivesse apenas exercendo minha devoção: essa vontade sincera de partilhar a vida, dividir experiências e reduzir as distâncias.

A lealdade começou a se revelar quando entendi que nem toda porta se abre no momento em que batemos. E que insistir para que uma porta se abra nem sempre é a forma mais respeitosa de permanecer diante dela.

A devoção pergunta:

“Quando nos veremos?”

A lealdade sabe dizer:

“Quando for possível.”

A devoção deseja respostas.

A lealdade respeita os silêncios.

A devoção corre ao encontro.

A lealdade compreende quando é hora de esperar.

Não penso que uma seja melhor que a outra. Ambas têm seu lugar. Sem devoção, talvez nunca tivéssemos coragem de nos aproximar. Sem lealdade, talvez não soubéssemos permanecer quando a vida nos obriga a desacelerar.

Mas há uma diferença importante. A devoção busca o outro. A lealdade busca o bem do outro. E, às vezes, buscar esse bem significa não transformar afeto em cobrança, expectativa em obrigação ou saudade em dívida.

Tenho aprendido que algumas pessoas entram em nossa vida para nos ensinar justamente isso: que é possível continuar admirando, torcendo, acolhendo e mantendo a porta aberta, sem exigir que alguém a atravesse.

Talvez seja isso que significa cativar alguém. Não prender, mas criar um vínculo que continua existindo mesmo quando a vida impõe distância.

Talvez essa seja a forma mais madura de permanência.

Não a que persegue.

Não a que reivindica.

Mas a que permanece disponível.

Como uma luz acesa na varanda.

Não para servir de lembrete.

Nem para chamar atenção.

Mas simplesmente porque essa é a sua natureza.

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