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O Ponto de Luz

À noite, da janela do apartamento, vejo uma luz acesa num prédio distante.

Não sei quem mora ali.

Não sei se é alguém que trabalha até tarde, alguém que não consegue dormir, alguém que lê um livro antes de deitar ou simplesmente alguém que esqueceu a luz acesa ao sair.

É apenas um ponto luminoso perdido na escuridão da cidade.

Ainda assim, toda vez que o vejo, invento histórias.

Imagino um professor corrigindo provas. Uma senhora terminando um bordado. Um jovem estudando para uma prova difícil. Um músico tentando encontrar a sequência certa de notas. Alguém escrevendo uma carta que talvez nunca seja enviada.

A verdade é que não sei nada sobre aquela janela.

Mas gosto da ideia de que, enquanto observo aquela luz distante, existe uma vida acontecendo ali dentro. Com alegrias, preocupações, planos e memórias que nunca conhecerei.

A cidade é feita dessas pequenas distâncias.

Passamos uns pelos outros sem saber das batalhas que cada um trava. Sem saber o que celebra, o que perdeu, o que espera.

Talvez por isso eu goste tanto daquele ponto de luz.

Ele me lembra que o mundo é muito maior do que as histórias que conheço.

E que, neste exato instante, enquanto escrevo estas linhas, há milhões de pessoas vivendo momentos decisivos sem que eu faça ideia disso.

Uma criança dando os primeiros passos. Um velho amigo reencontrando alguém. Um casal tomando um café. Um poeta terminando um verso. Uma mulher olhando pela janela.

E todas essas vidas seguem adiante, silenciosamente, como pequenas luzes acesas na noite.

Algumas eu jamais conhecerei.

Mas gosto de saber que estão lá.

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