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Violência Doméstica

A violência contra a mulher só existe quando há um corpo estendido no chão, inerte, sem vida. Antes disso, ainda que a mulher peça ajuda até mesmo para a família e para os amigos, tudo é exagero, feminismo, precipitação, imaturidade, má fé, vingança contra o parceiro, etc.

A violência contra a mulher faz parte do nosso cotidiano, e não há um único caso em que não tentem atribuir à mulher algum tipo de culpa por ser violentada psicologicamente, espancada, estuprada, e até mesmo morta.

Que a nossa sociedade deixe de ser hipócrita e assuma que é 100% machista. É menos feio do que passar pano para os homens que acham que tem direito de vida e de morte sobre as mulheres.

E aproveitando… Pensar em violência contra a mulher apenas quando ela é fisicamente agredida é de uma ignorância tremenda! E quando ela precisa abrir mão de seus sonhos, vontades e desejos? E quando o homem faz com que a mulher se torne financeiramente dependente dele para que não o largue? E os homens que colocam os filhos contra a mãe em uma tentativa covarde de manipulação? Essas e outras violências, aparentemente invisíveis ou mesmo não vistas propositadamente, doem tanto quanto uma dor física. E ainda assim a sociedade passa pano em tudo que acontece, usando até a Bíblia como argumento em favor dos homens.

CHEGA!!! BASTA!!!

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10 dias

Sangue abundante escorre do meu nariz. Não sinto dor. Meu rosto está adormecido. Minha filha, ainda por completar dois anos, está assustada. Se jogou para trás enquanto brincávamos na cama e acertou com a cabeça o meu nariz, que se partiu imediatamente.

O 911 é acionado. Chegam em 3 minutos. Um pano de prato coberto de sangue no meu rosto tenta estancar o sangramento. Os socorristas me examinam, verificam se estou vivo (dessa parte eu já sabia), e me dizem o seguinte:

“Podemos cobrar USD 1,000 para levar o senhor até o hospital ou alguém pode leva-lo. O senhor está estável. Basta assinar essa ficha dizendo que dispensou a remoção para o hospital e está tudo certo.” Assino e parto para o hospital.

Parece um hotel. De certa forma, eu estava destoando. Camisa manchada de sangue, pano de prato no rosto. Sou acolhido antes mesmo de preencher uma ficha.

– Isso sempre acontece com o senhor? – pergunta o enfermeiro da triagem.

– Sim… Sempre que minha filha me dá uma cabeçada.

Na prática, ele estava fazendo o papel dele. Era parte do script do atendimento. Vai que sou vítima de violência familiar?

Depois do X-Ray, foi constatada a fratura. O médico foi claro: “Você tem 10 dias para operar e colocar o nariz no lugar. Caso contrário, será necessário quebrar de novo para poder reposiciona-lo.”

Procurei um ENT (ear, nose and throat) Surgeon, e marcamos a cirurgia. Cheguei cedo no dia. Deram-me algum antinflamatório e disseram que aplicariam a anestesia. E nisso, chega o anestesista: “Onde estão os seus exames pré-operatórios? Não fez nenhum? Não tem problema. Assina aqui. Se morrer, a responsabilidade é sua.”

Levantei-me e fui procurar a médica. “Eu pensei que você sabia que tinham que ser feitos.” – disse ela. Certo… E eu os faria sem pedido médico e o plano cobriria tudo, não é mesmo? Além disso, sou médico e não economista… Sofrível.

Fiz todos os exames, sempre lembrando dos tais 10 dias. Até exame do coração com contraste eu fiz (um pedido completamente fora do normal para a minha idade de acordo com os padrões brasileiros). Tudo ok. Eu podia operar.

“Ih… Essa semana estou fora. Não vou poder te operar. Volto semana que vem. Não tem problema. Eu quebro seu nariz de novo e a gente resolve isso.”

Não. Desisti da cirurgia. Dane-se! Fico com o rosto do Rocky Balboa, mas ninguém vai quebrar meu nariz de novo.

Ligo para minha mãe e conto a história. Enquanto isso, aliso meu nariz de cima para baixo. Ouço um barulho, um estalo. Meu nariz se movimentou. Olho-me no espelho. O nariz estava de volta no lugar.

Moral da História: Não deixe sua filha quebrar o seu nariz mais de uma vez.

10dias