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Sobre o tempo

Tenho pensado bastante sobre o papel do tempo em nossas vidas.

Há coisas que, sem dúvida, precisam dele. Algumas feridas cicatrizam aos poucos. Certos entendimentos amadurecem apenas depois que os dias passam. O tempo tem a capacidade de revelar, transformar e dar profundidade ao que antes era apenas possibilidade.

Mas, quanto mais observo a vida, mais percebo que ele talvez não seja o protagonista que costumamos imaginar.

Penso em um jardim e uso essa metáfora com frequência. A semente não floresce de um dia para o outro. A chuva, as estações e a passagem dos meses são parte indispensável do processo. Ainda assim, nada disso acontece sem o pequeno gesto inicial de plantar.

Talvez muitas coisas sejam assim.

O tempo tem a capacidade de amadurecer os caminhos que escolhemos, mas não de escolher por nós. Algumas coisas dependem dos dias; outras dependem da coragem de dar o primeiro passo.

Talvez eu pense dessa forma porque a vida me ensinou muito cedo que ela é mais breve do que gostararíamos e que, no cotidiano, raramente nos damos conta dessa brevidade. Recentemente me dei conta de que já tive dezoito anos e que hoje tenho cinquenta e quatro. Não foi uma descoberta, mas um espanto. Os anos não passaram de uma vez; passaram um dia de cada vez.

Talvez essa percepção também venha das pessoas que encontrei pelo caminho. Perdi um irmão quando ele tinha apenas oito anos de idade. Em contrapartida, minha bisavó viveu até os noventa e seis, apreciando seu vinho quase todos os dias. Entre uma história e outra existe um mistério que jamais compreendi completamente. A vida parece seguir seus próprios critérios, muitas vezes indiferente aos nossos planos, cuidados ou expectativas.

Foi talvez essa constatação que me ensinou a desconfiar da abundância do tempo. Aprendi que o amanhã é uma esperança, não uma promessa. Por isso, passei a valorizar menos as possibilidades futuras e mais os gestos presentes.

Não por impaciência, mas porque acredito que o futuro nasce, de alguma forma, daquilo que fazemos hoje.

No fim, talvez o tempo seja menos uma solução e mais um companheiro de jornada. Ele caminha ao nosso lado, oferecendo oportunidades para que as coisas floresçam. Mas continua sendo nossa a escolha de semear ou não.

E enquanto ele segue seu curso silencioso, a vida acontece. E desacontece também.

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