Avatar de Desconhecido

Testamento

Para ti, minha filha,

Deixo de herança todas as minhas mazelas.

Que tua alma se consuma feito a minha,

No caldeirão de malfeitos no qual fui marinada e ungida,

Posto que sou sagrada.

Mas que tu entendas, minha filha:

Até os meus malfeitos são perfeitos –

Milimetricamente perfeitos –

Lustrosos e rebuscados ao ponto de mentes menos sagazes os defenderem.

Sou teu arquétipo e não admito que diferente de mim sejas.

Sou tua juíza e teu algoz –

Cassei tua voz! –

E projeto em ti tudo que sou,

Que nego,

Que invejo –

Sou pura inveja! –

Que odeio,

Que gostaria de ter sido,

Que nunca fui.

Agradeças, minha filha.

E quando pensares em ser diferente,

Bem no fundo da tua mente,

Ouvirás a minhas voz e não te atentarás

Que sou dona do teu inconsciente.

Esta é para ti a minha fiel herança:

Tornei-te esta insegura criança,

Que jamais será capaz de perceber,

Até mesmo quando adulta,

Que és apenas mais uma de minhas infinitas –

E ainda assim narcisicamente perfeitas –

Lambanças.

2 pensamentos sobre “Testamento

Deixar mensagem para Fabio Ottolini Cancelar resposta