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Podcast 02: Vestígios E Travessias

Pip: Agora Babou escreve poesia curta como quem dobra uma carta que não vai enviar — com cuidado demais para ser descuido.

Mara: Neste episódio percorremos memória e ausência, fé e travessia, o tempo que se repete no mesmo mar, e o corpo como lugar de acolhimento.

Pip: Vamos começar pelo que fica quando alguém vai embora.

O que resta quando a presença some

Mara: "Vestígios" abre com uma imagem concreta: cartas antigas que ainda guardam o calor de mãos ausentes. O poema pergunta como os objetos continuam a habitar o tempo depois que as pessoas saem dele.

Pip: E a resposta que o poema dá é que eles não apenas guardam — eles adiam. "Cartas e fotografias adiam e permeiam o tempo: quer seja na trama das palavras, ou nas imagens de sepulcral silêncio."

Mara: O que isso significa na prática é que a memória não é passiva. Ela continua agindo sobre quem fica.

Pip: "Reverbera" leva essa ideia para dentro de casa — literalmente. A cozinha, um copo, um gesto. A ausência não é abstrata; ela ocupa o espaço físico.

Mara: E o poema termina com uma honestidade desarmante: "E dói." Dois palavras que encerram o argumento inteiro.

Pip: Do que fica nos objetos ao que a fé faz com os sinais que já chegaram.

Fé que não espera permissão do mar

Mara: "Deságua" é um hai-ku de três linhas que propõe uma ideia sobre confiança sem controle: "o rio não escolhe o mar, mas nele chega."

Pip: Três linhas que dissolvem boa parte da ansiedade espiritual ocidental.

Mara: O que isso coloca em jogo é a diferença entre destino e escolha — o rio não delibera, mas chega. A fé aqui é estrutural, não emocional.

Pip: E "Vim trazer verdades 70" vira o argumento: quem ainda pede sinal divino, segundo o poema, já viu todos. O problema não é a falta de sinal — é a decisão que o sinal exige.

Mara: Os dois poemas juntos formam uma sequência: a fé como corrente que carrega, e o sinal como espelho que já está posto. O que falta é movimento.

Pip: Movimento — e talvez um olhar diferente para o que não muda.

O mesmo mar, o outro rosto

Mara: "No mesmíssimo mar" é o poema mais longo deste grupo e funciona como uma câmera girando devagar: amendoeiras, amigos na calçada, um senhor com livros, café com broa. Tudo familiar, tudo igual.

Pip: E o poema não resolve a tensão — ele a nomeia. "Aonde se esconde a novidade? Só sei que continuo a buscá-la no mesmíssimo mar."

Mara: O que isso entrega ao leitor é o deslocamento de quem procura novidade no cotidiano e descobre que a busca em si é o único movimento real.

Pip: "Multiversos" comprime essa ideia até o osso: "o não dito expande." O que não aconteceu também ocupa espaço.

Mara: E "No outro" fecha o triângulo com o espelho — o que a gente nega em si mesmo aparece no rosto de outra pessoa. Três poemas, três ângulos do mesmo deslocamento: o tempo, o silêncio, o reflexo.

Pip: Do reflexo para o colo — do que nos confronta ao que nos recebe.

O corpo que silencia o ruído

Mara: "Calor" é outro hai-ku, e talvez o mais direto do episódio: "Colo que acolhe — o mundo em ruído some no calor dos seios."

Pip: Não há metáfora escondida. O corpo como lugar de chegada, não de passagem.

Mara: O poema trata acolhimento como experiência física antes de ser emocional. O ruído do mundo não é resolvido — ele some. É uma distinção importante.


Pip: Cartas que adiam o tempo, rios que chegam sem escolher, o mesmo mar de sempre, um colo que silencia o mundo.

Mara: São coordenadas bem diferentes para o mesmo território — o que fazemos com a presença e com a falta dela.

Pip: Até o próximo episódio.

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