Como disse no último texto que escrevi sobre política, este blog nasceu para falar de política. Talvez eu não tenha deixado claro, naquela ocasião, o motivo que me fez transformá-lo em outra coisa. Foi a polarização. Ela chegou perto demais: comecei a perder amigos e a deixar de ir a encontros de família por causa dela. Preferi o silêncio a mais uma briga. Volto ao assunto agora porque o que aconteceu nesta semana é sério demais para eu ficar calado, mesmo sabendo que a polarização continua forte e que muita gente ainda vai levar tempo para absorver não o que eu narro, mas os fatos como estão acontecendo.
Não escrevo como petista nem como bolsonarista. Escrevo sobre coisas que vi acontecer, e de algumas participei. Apoiei o primeiro governo de Fernando Henrique e critiquei o segundo, quando ele segurou o câmbio para se reeleger. Nunca acreditei no PT. Por volta de 2016 ou 2017, fui convidado por políticos de Niterói para um evento restrito com Jair Bolsonaro no Clube Português, e votei nele em 2018. Minha desconfiança começou cedo, em 2019, quando o general Santos Cruz deixou o governo depois de se opor, segundo ele próprio, ao uso político das verbas de comunicação. Critico quem merece crítica, e hoje quem merece é Flávio Bolsonaro.
Há gestos que dizem mais que qualquer discurso de campanha. Um dia depois de perder a eleição presidencial, Flávio Bolsonaro foi intimado pela Polícia Federal, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, a entregar o passaporte e a não deixar o Brasil. Ele deixou o país mesmo assim. Segundo fontes do governo americano ouvidas pela CNN, chegou aos Estados Unidos na querta-feira, 28 de outubro, com a mulher, Fernanda, e as duas filhas, em um voo que saiu da Argentina com destino a Miami e fez uma escala no Equador. O Departamento de Estado americano vai conceder vistos a ele e à família. Não foi uma viagem. Foi uma mudança.
Quero analisar esse gesto com frieza, porque o assunto é sério demais para virar só desabafo.
O que se sabe
Flávio responde a três inquéritos no Supremo Tribunal Federal: um por calúnia contra o presidente reeleito, outro sobre o financiamento do filme Dark Horse e um terceiro por suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, ligado ao advogado Willer Tomaz. Ele não foi condenado em nenhum deles. Até aqui, é investigado e nada mais.
A justificativa veio dos aliados: seria um “exílio político” causado por uma “perseguição” de Moraes. Seu vice na chapa falou em “perseguição implacável”. Aliados disseram à imprensa que o governo Trump teria sinalizado com asilo.
O argumento da perseguição
Vou ser justo com o outro lado, porque um texto que esconde o que o enfraquece não merece ser lido. A medida de Moraes (atendendo a um pedido da Polícia Federal, que fique claro), foi criticada até por senadores aliados de Lula, que a chamaram em privado de “inadequada” e “precipitada”. É legítimo discutir se a apreensão do passaporte era necessária.
Só que discutir uma decisão judicial é uma coisa. Fugir dela é outra. Um país tem caminhos para contestar um ministro do Supremo: recursos, defesa técnica, imprensa, a tribuna do Senado, que Flávio ocupa até 31 de janeiro de 2027. Ele tinha todos esses caminhos à mão e preferiu o aeroporto.
Fugir não é confissão, mas é um recado
Juridicamente, fugir não prova culpa. Não vou fingir que prova. Mas fugir diz alguma coisa, e diz ao eleitor.
Quem se acha inocente costuma querer o processo, porque é nele que a inocência fica provada. Quem foge antes de qualquer condenação mostra que não confia em ser absolvido por um juiz do próprio país. E é aqui que está o ponto central deste texto: esse homem pediu o voto dos brasileiros para comandar as instituições que agora se recusa a enfrentar. Ele queria indicar ministros para o Supremo, nomear o chefe da Polícia Federal, ser o fiador da Constituição. Na primeira vez que essas instituições o alcançaram, ele saiu do país.
Não consigo chamar isso de outra coisa que não covardia. E covardia, num candidato à Presidência, não é um detalhe de temperamento. É uma informação sobre o que ele faria com o cargo.
Um exemplo que vale a pena lembrar
Há um caso que ajuda a medir essa diferença.
Em abril de 2018, Lula se entregou à Polícia Federal e ficou preso até novembro de 2019. Concorde-se ou não com as decisões que o tiraram da prisão, ele não fugiu.*
Flávio nem esperou ser condenado.
Depois de Lula, vale registrar o contraste com a própria direita. Em 2022, depois da derrota de Jair Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia criticou a ida dele aos Estados Unidos. Segundo o Diário do Centro do Mundo, ele disse: “Então, para mim, com o cara sair correndo para a América eu não concordei.” A fala faz parte do documentário “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa.
Em outubro de 2026, depois da saída de Flávio, o mesmo Malafaia publicou um vídeo, nesta quarta-feira, 28 de outubro, em que disse que Flávio está “certíssimo” em sair do Brasil e perguntou: “Queriam o quê?” A crítica feita ao pai virou defesa ao filho. O texto não explica essa mudança, mas os dois registros permitem a comparação.
Há ainda um tweet que voltou a circular. Ele foi publicado na conta de Flávio em 25 de janeiro de 2018, quando ele comemorou a decisão do juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, de apreender o passaporte de Lula. Não se trata de uma provocação sobre a fuga de agora, e isso precisa ficar claro para quem me lê. São apenas fatos.
Quando o Supremo podia ser investigado
A queixa de perseguição fica ainda mais estranha quando se olha o passado. Em 2019, quando o Senado tentou abrir a CPI da Lava Toga para investigar ministros do STF, Flávio foi o único dos quatro senadores do PSL, seu partido na época, que não só deixou de assinar o pedido como trabalhou para enterrá-lo. Segundo a imprensa da época, ele telefonou para colegas pedindo que retirassem suas assinaturas.
A crítica não vem só de adversários. O senador Eduardo Girão, historicamente aliado do bolsonarismo, chegou a sugerir que Flávio teria feito um acordo com o Supremo para se livrar das acusações da rachadinha.
E foi justamente nesse caso que ele mais se beneficiou do sistema que hoje acusa. Sua defesa entrou com uma série de recursos, e a quebra de seu sigilo acabou anulada no STJ. É um tratamento que o brasileiro comum, sem foro, sem advogados caros e sem sobrenome, raramente recebe da Justiça.
Quando o Supremo podia ser investigado, Flávio o protegeu. Quando a Justiça o favoreceu, ele aproveitou. Agora que ela o alcança, ele diz que é perseguido.
Siga o dinheiro
Há uma pergunta simples que qualquer eleitor tem o direito de fazer: como uma família inteira larga a vida no Brasil e se mantém indefinidamente nos Estados Unidos? Eduardo já vive lá. Agora vão Flávio, a mulher e as filhas.
Há uma explicação oficial. Eduardo diz que se banca com as próprias economias e com a ajuda do pai, que lhe repassa parte das doações recebidas de apoiadores via Pix. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, contou que chegou a propor uma arrecadação mensal entre deputados para cobrir o salário de Eduardo. Ou seja, pelo relato dos próprios envolvidos, a vida no exterior depende de doações de apoiadores. É uma explicação, mas não é uma prestação de contas.
O dinheiro público do partido também passa pela família. Segundo o jornal O Globo, com base na prestação de contas do PL, o partido gastou pelo menos R$ 484 mil entre janeiro e abril de 2026 para pagar familiares, ex-ministros e antigos assessores de Jair Bolsonaro, com recursos do Fundo Partidário, que é dinheiro do contribuinte.
E há o Dark Horse. Flávio é investigado no STF por suspeitas envolvendo o financiamento do filme sobre o pai, uma apuração ligada ao caso do Banco Master. Flávio e Eduardo negam qualquer irregularidade.
Não afirmo que o fundo partidário ou o dinheiro do filme sustentem a família no exterior. Isso ainda não está provado. Mas a pergunta é legítima e precisa ser respondida: se o próprio Flávio é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, de onde vem o dinheiro que os mantém nos Estados Unidos? Dinheiro não nasce em árvore.
Não é um caso isolado
No meu texto anterior falei do clã, e este episódio confirma o padrão. Em 2022 o pai saiu do país depois de perder a eleição. Em setembro de 2025, foi condenado pela Primeira Turma do STF a 27 anos e três meses de prisão por crimes ligados à tentativa de golpe. O irmão Eduardo vive nos Estados Unidos. Em 23 de outubro, num programa americano, Eduardo disse que apoiaria a saída de Flávio se ele perdesse e que, se o irmão sofresse medidas judiciais, seria preciso buscar apoio externo, chegando a falar em “chamar os fuzileiros navais”.
Vale reler essa frase com calma. Antes mesmo da eleição, a saída do país já era defendida em público dentro da própria família, como resposta a uma possível derrota e a eventuais decisões da Justiça brasileira.
E o padrão vai além da família. O advogado Willer Tomaz, investigado no mesmo inquérito de lavagem de dinheiro e evasão de divisas que Flávio, viajou para os Estados Unidos na semana anterior, antecipando-se a qualquer decisão de Moraes. Perguntado sobre a volta ao Brasil, respondeu: “Não é da sua conta”. Paulo Figueiredo, denunciado por tentativa de golpe de Estado, vive em Miami, teve a prisão preventiva decretada pelo STF e é considerado foragido. Como mora fora, nem pôde ser intimado pessoalmente, e o processo contra ele ficou suspenso até que a notificação chegasse por cooperação com a Justiça americana.
Os Estados Unidos viraram, na prática, um destino recorrente para quem está na mira da Justiça brasileira.
A pergunta que fica
Se Flávio não confia nas instituições brasileiras para julgá-lo, por que queria comandá-las? As respostas que me ocorrem não são boas. Ou ele nunca acreditou nelas e queria o poder para se proteger delas, ou acreditava nelas só enquanto estivessem a seu favor.
De um jeito ou de outro, o recado aos eleitores que confiaram nele é claro. O homem que pediu o voto para defender o Brasil não quis ficar no Brasil quando ficar passou a custar alguma coisa.
* Nota: não tenho simpatia por Lula, e por isso faço questão de ser preciso. Lula nunca foi absolvido. Em 2021, o STF anulou suas condenações da Lava Jato por entender que a vara de Curitiba não tinha competência para julgá-lo. Os processos teriam de recomeçar do zero na Justiça Federal de Brasília. Como Lula já tinha mais de 70 anos, o prazo de prescrição caiu pela metade, como prevê o artigo 115 do Código Penal. Com isso, a 12ª Vara Federal de Brasília reconheceu a prescrição nos dois casos principais, o do sítio de Atibaia e o do tríplex do Guarujá, este arquivado em janeiro de 2022, a pedido do próprio Ministério Público Federal. Ou seja: ele não foi condenado de novo, mas também não foi declarado inocente. O ponto deste texto não muda: diante da ordem de prisão, ele ficou.

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