Tem gente que atravessa o mundo
pra ver o que eu vejo de chinelo.
O Pão de Açúcar do outro lado da baía,
de perfil, como quem não pede nada.
A Pedra de Itapuca,
firme no mesmo lugar desde sempre,
deixa o mar bater sem responder.
Um homem cata a vida entre as rochas,
sem pressa e sem plateia.
A amendoeira me empresta a sombra
sem perguntar de onde eu venho
nem quanto tempo eu fico.
No chão, as ondas de pedra portuguesa
fazem o que o mar faz:
vão e voltam
sem nunca sair do lugar.
O disco do Niemeyer pousou no penhasco
e decidiu ficar.
Eu também.
Aqui ninguém me deve leitura.
A maré lê tudo,
apaga tudo
e recomeça a página toda manhã.
Este é o meu quintal:
não tem muro,
não tem porta da frente.
Quem chega, já entrou.



