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O absurdo

Todo dia empurro a pedra
morro acima.
Todo dia ela rola
de volta ao começo.

Ninguém lá em cima
me espera com respostas.
O céu não explica nada,
só é céu.

Já gritei pra montanha,
perguntei por quê.
A montanha, sendo montanha,
não respondeu.

Então desci de novo,
devagar,
e no caminho reparei
no vento, na poeira dourada,
na minha sombra ao meu lado.

A pedra é minha.
O morro é meu.
E esse passo que insiste,
mesmo sabendo,
também é meu.

Não empurro porque vai dar certo.
Empurro porque estou vivo.


Sobre o poema

Para Albert Camus, o absurdo nasce do encontro entre a nossa busca de sentido e o silêncio do mundo, que não responde. No mito, Sísifo foi condenado a empurrar uma pedra até o alto de uma montanha, só para vê-la rolar de volta, para sempre. Camus não vê ali uma tragédia sem saída. Ele vê a revolta lúcida de quem segue vivendo plenamente, sem garantias. E não afirma que Sísifo é feliz. Ele nos convida a imaginá-lo assim: “É preciso imaginar Sísifo feliz.”

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