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Quarto habitado

Fecho a porta
e ninguém chega.
Antes, eu contava os passos
que não vinham.

Hoje escuto outra coisa:
o café esfriando devagar,
a luz mudando de parede,
uma frase que nasce
sem pedir plateia.

Não é ausência.
É casa.
Alguém mora aqui,
e sou eu.

Aprendi tarde
que estar só não é sobra,
é chão.
Que o silêncio também fala
quando a gente para
de esperar a voz do outro.

E se alguém bater,
abro a porta inteiro.
Não por falta.
Por escolha.


Sobre o poema

O psicanalista Donald Winnicott escreveu que a capacidade de estar só é uma das maiores conquistas do amadurecimento. Para ele, ela costuma nascer na infância, da experiência de estar sozinho na presença de alguém, até que essa presença passe a morar dentro da gente. Mas nem todos recebem isso cedo. Para alguns, essa capacidade é aprendida tarde, com tempo, perdas e trabalho interior. Talvez por isso ela valha ainda mais. Quem consegue estar só não está fugindo do outro, está pronto para recebê-lo sem precisar dele para existir.

4 ideias sobre “Quarto habitado”

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