Fecho a porta
e ninguém chega.
Antes, eu contava os passos
que não vinham.
Hoje escuto outra coisa:
o café esfriando devagar,
a luz mudando de parede,
uma frase que nasce
sem pedir plateia.
Não é ausência.
É casa.
Alguém mora aqui,
e sou eu.
Aprendi tarde
que estar só não é sobra,
é chão.
Que o silêncio também fala
quando a gente para
de esperar a voz do outro.
E se alguém bater,
abro a porta inteiro.
Não por falta.
Por escolha.
Sobre o poema
O psicanalista Donald Winnicott escreveu que a capacidade de estar só é uma das maiores conquistas do amadurecimento. Para ele, ela costuma nascer na infância, da experiência de estar sozinho na presença de alguém, até que essa presença passe a morar dentro da gente. Mas nem todos recebem isso cedo. Para alguns, essa capacidade é aprendida tarde, com tempo, perdas e trabalho interior. Talvez por isso ela valha ainda mais. Quem consegue estar só não está fugindo do outro, está pronto para recebê-lo sem precisar dele para existir.
Solidão é bom, às vezes sim, às vezes não; às vezes, nem a nossa própria companhia aguentamos, às vezes…
Confesso que ja tive mais problemas com isso, mas depois de anos de Psicanálise, a coisa melhorou. Hoje em dia, graças a Deus, tranquilo! Obrigado pela visita e pelo comentário. Abs.
belissimo poema, um dos melhores que li aqui… quero-o para mim.
MUITO OBRIGADO! Me sinto honrado! Ela já está aí, pronto, e de alguma forma é de todos nós, é do mundo. 🙂