Não foi uma vitória do PT. Foi a nossa.
Para quem não sabe, este blog nasceu para falar de política. Com o tempo, o debate ficou tão nojento que mudei o propósito dele e passei a publicar as poesias que escrevo desde a década de 1980.
Mas é impossível deixar passar o que aconteceu ontem. Foi, talvez, uma das maiores demonstrações de que, aos poucos, a nossa democracia está se consolidando.
Não sou petista. Não sou bolsonarista. Sou de direita, talvez de centro-direita, mas, acima de tudo, tenho uma visão profundamente humanista.
E eu não consigo esquecer o que aconteceu na pandemia. Simplesmente não consigo. Disseram que sairíamos dela melhores como seres humanos, mas, ainda durante a própria pandemia, eu já via sinais do contrário.
A questão nunca foi “a economia a gente vê depois”. A pandemia atingia diretamente a saúde, e, como a vida está (ou deveria estar) acima de tudo, o impacto na economia do mundo inteiro foi uma consequência natural disso. Nunca houve escolha entre uma coisa e outra: sem gente viva, não existe economia.
Faltou comando. Faltou autoridade. Faltou um presidente que não achasse que a vida das pessoas valia menos do que a economia. Faltou ciência, sobrou negacionismo. Faltou empatia, sobrou crueldade.
E isso precisa ser dito. Precisa ser mostrado, com todas as letras.
Foram mais de 700 mil brasileiros mortos. O Brasil, com menos de 3% da população mundial, chegou a concentrar mais de 10% das mortes por Covid do planeta. Não é um número. São pais, mães, filhos, avós.
Ainda em 2020, a Pfizer ofereceu vacinas ao governo brasileiro. Dezenas de e-mails ficaram sem resposta, como a CPI da Covid mostrou. Cada mês de atraso na vacinação foi pago em vidas.
Em vez de vacina, o governo empurrou cloroquina, um remédio sem nenhuma comprovação científica contra a doença. A ciência foi tratada como inimiga. Em plena pandemia, o país teve quatro ministros da Saúde, e quem tentava seguir a ciência não durava no cargo.
Em janeiro de 2021, Manaus ficou sem oxigênio. Pessoas morreram asfixiadas dentro dos hospitais, enquanto familiares corriam pelas ruas atrás de cilindros.
E, durante tudo isso, ouvimos do presidente da República que era só uma “gripezinha”. Que ele “não era coveiro”. “E daí?”. Ouvimos o presidente imitar, em tom de deboche, uma pessoa sem ar.
Eu não perdi ninguém da minha família. Mas perdi a conta de quantos amigos enterraram pais, mães, irmãos. Muitos sem poder se despedir.
E não precisa ser parente para doer. Toda vida importa. Uma vida não vale menos porque não é da minha família.
O que mais me revoltava era a lógica por trás do discurso. “Bota o povo na rua, a economia não pode parar.” Quem dizia isso, muitas vezes, podia ficar em casa, trabalhando de casa, protegido. Quem ia para a rua era o entregador, o caixa de supermercado, a diarista, o motorista de ônibus. Era fácil defender que a economia girasse quando o risco ficava com os outros.
E vi, com meus próprios olhos, ninguém me contou, gente negando os fatos e expondo ao risco justamente os mais vulneráveis. Festa, aglomeração, deboche da máscara. E isso era mais comum, muito mais, entre quem estava no espectro da extrema direita.
A tragédia também foi econômica. Ao contrário do que muita gente pensa, quem sustenta o Brasil não são os grandes grupos. São os pequenos negócios: as micro e pequenas empresas são 97% das empresas brasileiras, respondem por 26,5% do PIB e por mais da metade dos empregos formais do país. E foram elas as mais atingidas. Os programas de crédito chegaram tarde e não chegaram a muita gente. Pessoas que investiram as economias de uma vida inteira num restaurante, numa loja, num salão, perderam tudo. Perderam o negócio, o patrimônio pessoal, e muitas ficaram endividadas por anos.
E não basta dizer que houve crédito. Há negócios que não funcionam como um interruptor, que se desliga hoje e se liga amanhã. Uma escola é o melhor exemplo. Quando fecha, as famílias tiram os filhos, mudam de escola ou os mantêm em casa, e não voltam no dia da reabertura. Aqui em Niterói, escolas tradicionais, com décadas de história, estão fechando as portas ou vendendo seus prédios. A Cirandinha, em Icaraí, com mais de 50 anos, anunciou que encerraria as atividades citando os reflexos que ainda vive da pandemia. O Miraflores vendeu seu terreno depois de quase 60 anos de funcionamento. Sem planejamento, de nenhuma das esferas de governo, essas pessoas não tinham a opção de parar e retomar logo depois. Alguns empresários conseguiram se reinventar. Outros, pelo segmento em que atuavam, simplesmente não tiveram como.
O STF e o vácuo de comando
Muito se repete por aí que a crise foi provocada pelo STF, que teria amarrado as mãos do governo federal. Não é verdade. O STF não impediu o governo federal de agir. O que ele fez foi reconhecer o que a Constituição já dizia: que a saúde é responsabilidade compartilhada entre União, estados e municípios.
O STF precisou se manifestar porque faltava comando. O SUS é um sistema único, pensado para funcionar de maneira coordenada. Sem uma coordenação central, estados e municípios foram obrigados a tomar suas próprias medidas, muitas vezes de forma desencontrada e até equivocada. Uns fecharam escolas antes, outros depois. Uns mandaram as pessoas ficarem em casa, outros não. Não foi excesso de Judiciário. Foi ausência de governo.
Não escrevo isso para defender o STF. Discordo de vários ministros e de muitas das posições que eles tomam. Mas é preciso lembrar como eles chegaram lá: foram indicados por presidentes da República, sabatinados e aprovados pelo Senado. Dois deles, inclusive, foram indicados pelo próprio Jair Bolsonaro. Atacar o Supremo como se fosse um poder ilegítimo é atacar as regras que a própria democracia estabeleceu. Discordar das decisões é legítimo. Tratar a instituição como inimiga, não.
Eu não esqueço. E não acho que o Brasil tenha o direito de esquecer.
É por isso que a eleição de ontem importa tanto para mim. Não era só uma eleição. Era a chance de o Brasil mostrar que não esqueceu.
NUNCA perdoarei Jair Bolsonaro por isso. NUNCA. E sou daqueles que acreditam que a fruta não cai longe do pé.
E me incomodou muito ver tantos setores em que a concentração de capital é condição sine qua non se alinharem a Flávio Bolsonaro.
Sou formado em Economia, uma ciência social. É impossível não pensar nas consequências de discursos vendidos como liberais quando, na verdade, são apenas cruéis. Palavras como “meritocracia”, ditas num país tão desigual quanto o nosso, me causam arrepios.
Que extrema direita é essa?
Antes de seguir, preciso deixar claro do que estou falando. Quando digo extrema direita, não falo de uma direita liberal, nem de uma direita libertária que sonha com um Estado mínimo. Com essas dá para discordar e conversar. Falo de uma direita de inspiração fascista: preconceituosa, que ataca grupos minoritários de frente, sem nenhum disfarce, e que pouco se importa com a vida. O bolsonarismo, para mim, é isso. É uma seita.
E a eleição de Flávio Bolsonaro seria um ataque direto, frontal e talvez irrecuperável contra as mulheres, contra a população LGBT, contra a população negra, contra todas as minorias deste país. Não falo em tese: nos últimos anos, vimos o racismo, a misoginia e a homofobia perderem a vergonha de se mostrar em público, autorizados pelo discurso de ódio de quem estava no topo. Essas pessoas não são números de pesquisa. São nossas filhas, nossos amigos, nossos vizinhos.
E o que mais me dói é perceber que muitas das pessoas que seriam as primeiras vítimas desse projeto não conseguiam enxergar isso. Vi muitas mulheres apoiando um sobrenome cujo patriarca chamou o nascimento da própria filha de “fraquejada” e disse a uma deputada, no plenário, que ela não merecia ser estuprada. Não digo isso para julgar ninguém, mas para entender como o discurso de ódio consegue convencer justamente quem ele despreza.
E não se trata de opinião sobre uma família. Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF, em setembro de 2025, a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Eduardo Bolsonaro foi morar nos Estados Unidos e, segundo a condenação unânime da Primeira Turma do STF, articulou o tarifaço de Trump contra as exportações brasileiras, a revogação de vistos e as sanções da Lei Magnitsky para tentar livrar o pai. Perdeu o mandato por faltas, foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão e perdeu também o cargo de escrivão da Polícia Federal. Um filho de ex-presidente pedindo a um governo estrangeiro que punisse o próprio país. E o outro filho queria governá-lo. Hoje, um dia depois da derrota, já há pedidos no STF para reter o passaporte de Flávio, que perde o mandato de senador e o foro privilegiado em fevereiro de 2027. Fica difícil não concluir que, para essa família, o projeto nunca foi o país. Foi a sobrevivência do clã.
O pulo do gato
Mas vamos olhar com mais atenção. De um lado, Lula achava que os absurdos ditos por Flávio bastariam para reelegê-lo, e levou um susto no primeiro turno, quando terminou atrás. Do outro, a extrema direita entrou no clima de “já ganhou”. Foi aí que estava o pulo do gato.
Enquanto Lula tentava entender o que tinha dado errado e Flávio já se via imperador do Brasil, foi preciso que a população reagisse. E ela reagiu com força.
Foi todo mundo para a rua. Derrotar Flávio Bolsonaro virou uma obsessão coletiva. Na minha cidade, vi a força da vontade popular em ação.
Aqui em Niterói, vi vizinho tentando convencer vizinho. Sem briga, sem grito, sem dedo na cara. Com argumento, com fato, com conversa. Num país em que discutir política virou sinônimo de romper amizade, isso é raro. Vi bandeiras, vi botões no peito, vi até uma va’ata: canoas havaianas cortando o mar com bandeiras ao vento.
As pessoas não saíram de casa por um partido. Saíram porque perceberam que os direitos mais fundamentais garantidos pela nossa Constituição estavam prestes a ser violados.
Foi lindo!
Os números
Os números confirmam o que vi nas ruas. Lula teve 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio, 48,21%. Foi a maior votação de um presidente na nossa história e a primeira vez, desde a Constituição de 1988, que quem saiu atrás no primeiro turno virou no segundo.
Mas o dado que mais me emociona é outro: a abstenção. Ela caiu de 21,08% no primeiro turno para cerca de 19,2% no segundo, a menor numa eleição presidencial em 20 anos. Foram quase 3 milhões de pessoas a mais que saíram de casa para votar. Normalmente o comparecimento cai no segundo turno. Desta vez subiu. Isso não é acaso: é mobilização.
A prorrogação
E já tem gente tentando manchar esse resultado por causa da prorrogação da votação. Então vamos aos fatos. As duas campanhas pediram mais tempo. A do PT alegou falhas no transporte público. A do PL, partido de Flávio Bolsonaro, alegou chuvas, alagamentos e interdições de vias, e pediu ao TSE a prorrogação em municípios de cinco estados: São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O ministro Cristiano Zanin, do STF, autorizou que as seções ainda abertas funcionassem até as 19h. Urna lacrada não reabre: só votou quem já estava na fila ou em seção que ainda não tinha sido encerrada.
E aqui vai a minha opinião, sem rodeio: cada um pediu onde achava que ganharia. O PT começou pedindo a prorrogação em cidades da Bahia, um de seus maiores redutos, e depois estendeu o pedido para o país inteiro. O PL pediu justamente em estados do Sul e do Sudeste, onde o bolsonarismo é mais forte. Ninguém ali estava preocupado apenas com o eleitor. Os dois fizeram cálculo eleitoral. A diferença é que só um deles, depois de perder, resolveu chamar de manobra aquilo que ele mesmo pediu.
Resultado: entre 17h e 19h, foram computados cerca de 35 mil votos. A diferença entre Lula e Flávio passou de 4,4 milhões. Mesmo sem a prorrogação, o resultado seria o mesmo.
Não adianta, portanto, transformar Zanin em culpado. Pode-se discutir se a decisão cabia ao STF ou ao TSE. Mas, se o TSE deveria ter decidido, o presidente do TSE, Nunes Marques, também não decidiu a tempo. Zanin foi indicado por Lula. Nunes Marques, por Bolsonaro. Culpar só um deles não é análise, é torcida.
Que fique claro: não foi uma vitória do PT. Muita gente que votou em Lula ontem não é de esquerda e discorda de boa parte do que ele defende. O que se celebra aqui não é um partido nem um governo. É ter evitado um mal maior, a vitória de Flávio Bolsonaro. Foi a vitória de quem se recusou a esquecer. Essa etapa era absolutamente essencial. Mas, na prática, é só o primeiro passo.
O que eu espero daqui para frente
Desde 2018, a política brasileira virou uma briga entre Lula e Bolsonaro. Antes disso, por anos, foi PT contra PSDB, um mais à esquerda, outro mais ao centro, numa disputa em que, na prática, ninguém conseguia um nome forte o bastante para enfrentar o carisma de Lula. Mudam os nomes, mas o país continua refém de poucas figuras.
Espero que surja no Brasil uma direita de verdade. Democrática, que defenda suas ideias sem desprezar quem pensa diferente. E que quem se diz de direita pare de achar que o único caminho passa pela família Bolsonaro.
Mas o mesmo vale para o outro lado. A esquerda também não pode ser só Lula. Em algum momento ela vai precisar responder à pergunta que vem empurrando há anos: quem vem depois dele?
O Brasil merece ter vários caminhos, e não apenas dois sobrenomes.
E confesso que não tenho tanta esperança assim neste novo governo. O mesmo eleitor que reelegeu Lula deu ao PL a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e do Senado, com 28 senadores. Lula vai governar com o maior partido de oposição dominando as duas Casas. O eleitor brasileiro ainda trata o voto no Congresso como algo secundário, quando, na prática, ele pesa tanto quanto o voto para presidente. Presidente nenhum governa sozinho. Um exemplo claro: no próximo mandato, Lula poderá indicar até quatro ministros ao STF, a vaga deixada por Barroso e as aposentadorias de Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. Mas quem aprova é o Senado. E, mesmo com a composição atual, menos hostil, ele não conseguiu emplacar Jorge Messias, rejeitado em abril. Com o PL dono da maior bancada da Casa, essa será uma das grandes dificuldades do novo governo.
Um plano de Estado
Acima de tudo, o Brasil precisa de um plano de Estado, não apenas de um plano de governo. Precisamos de continuidade no que dá certo, independentemente de quem esteja no poder. Num país com tamanha concentração de renda, cada recomeço do zero é pago pelos mais humildes, pelos mais necessitados, justamente os que costumam ser esquecidos.
Esse plano de Estado passa por um Estado mais enxuto. Mais do que menor, mais eficiente: que entregue mais com o que já arrecada. E isso exige que a alta cúpula do funcionalismo público pare de se enxergar como uma casta especial, acima do resto da população que a sustenta.
Passa também por uma mudança de mentalidade de quem está no topo. Quem tem renda mais alta precisa entender que a violência que tanto teme é consequência direta da má distribuição de renda. Não existe muro alto o bastante para separar ninguém de um país desigual.
E nada disso se sustenta sem educação. Não consigo imaginar o Brasil saindo dessa situação sem um investimento pesadíssimo, contínuo e de longo prazo em educação. Esse é o exemplo mais claro do que deveria ser política de Estado, e não de governo.
O mesmo vale para a saúde. Na pandemia, muita gente descobriu que era hipertensa, diabética ou cardíaca só quando pegou Covid, porque nunca teve acesso a nenhum tipo de medicina preventiva. Isso não é culpa de Bolsonaro. É uma dívida histórica do Brasil.
E é justamente por isso que precisamos parar de usar o passado como desculpa. Chega de “a culpa é do governo anterior”. Está na hora de olhar para frente, com coragem e com vontade real de resolver os problemas. Chega também de dizer que o Brasil é o país do futuro. O Brasil é o país do presente, do agora. E é agora que a gente tem que fazer isso acontecer.
Democracia não se consolida num domingo. Ela se consolida na cobrança, na fiscalização e numa oposição responsável, inclusive a este governo que acaba de ser reeleito. Quem votou para impedir o pior tem o direito, e o dever, de exigir o melhor.
Ontem à noite
Enquanto as urnas eram apuradas, eu estava em São Paulo, num show do Iron Maiden, ao lado da minha filha. Entre uma música e outra, o olho ia para o celular. Eu torcia muito pela vitória de Lula, e, sinceramente, naquele momento achava impossível.
A gente já estava emocionado só de estar ali, vendo a banda que nós dois mais amamos. E então os números viraram. Eu e minha filha nos emocionamos juntos. Não teve como não se emocionar. Não teve.
Porque eu tento dar a ela a melhor informação possível. Tento educá-la para olhar para o próximo como quem olha para si mesmo. E ontem, ali do meu lado, ela viu que isso ainda pode vencer.
É assim que a gente tem que criar os nossos filhos. Quero que a minha filha enxergue o quanto é privilegiada, e que não conte com isso para sempre. Que ela entenda que vai ter que lutar eternamente pelos próprios direitos. E que, como consequência natural, deve lutar também pelos direitos dos outros.
Amanhã eu volto aos meus poemas. Mas ontem quem escreveu foi o Brasil.
