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Podcast 03: Desejo, Ausência e Permanência

Pip: Agora Babou chegou com uma semana inteira de poesia, e o tema central parece ser: o que o tempo não consegue levar embora, mesmo quando tenta.

Mara: Exatamente. Passamos por amor e ausência, por cicatrizes que viram ouro, e por aquele momento em que raiva e identidade se encontram no mesmo verso. Vamos começar pelo que fica — e pelo que nunca foi embora.

Amor, desejo e ausência

Mara: A trilogia “Aquilo que permanece” abre uma pergunta que os três poemas sustentam juntos: o que acontece com o amor quando o corpo some mas a memória recusa partir?

Pip: A terceira parte responde de forma direta. O verso final diz: “Você não voltou: poderia. Tentei. Esperei. O que era seu você perdeu nos seus caminhos. Mas nunca saiu de mim.”

Mara: O que isso coloca em jogo é simples e pesado ao mesmo tempo: a ausência não apaga o vínculo. Ele continua operando por dentro, sem permissão e sem endereço.

Pip: A segunda parte trabalha o lado mais perturbador disso — o quase. Tem um verso em que o gesto do corpo se adianta à razão: “Meu gesto se adiantou ao mundo.” O corpo ainda espera alguém que não está mais lá.

Mara: E a primeira parte ancora tudo no concreto. A cama, o travesseiro, o colchão que “sabe onde você esteve.” O poema termina com uma frase que funciona como diagnóstico: “A cama fria não mente. Ela não lembra, não tenta, não inventa. É mais honesta que a memória.”

Pip: Memória como testemunha não confiável — esse é o nervo do ciclo inteiro.

Mara: “Entre” e “O ar frio da espera” chegam de ângulos diferentes. “Entre” condensa tudo em três linhas: o silêncio entre toques diz mais que as mãos. “O ar frio da espera” vai na direção oposta — é prosa, é densa, e define a distância não em quilômetros, mas em chamadas que não acontecem.

Pip: E “Enquanto éramos só nós” mostra o antes: dois corpos no mesmo ar, sem precisar nomear nada. O contraste com o que vem depois é o que dói.

Mara: Da ausência para o que se reconstrói com ela — é aí que chegamos a seguir.

Cicatrizes, cura e resistência

Pip: Se o bloco anterior era sobre o que fica sem ser convidado, este é sobre o que se faz com isso.

Mara: “Sakura” abre com uma imagem que resume o argumento: “Alguns encontros não são feitos para permanecer, mas para florescer dentro.” A flor de cerejeira como metáfora não é nova, mas o uso aqui é preciso — brevidade não é fracasso.

Pip: O haiku “Kintsukuroi” e o poema longo “Kintsugi” funcionam como par. Um enuncia, o outro demonstra. “Kintsugi” descreve o processo de recolher os fragmentos um a um, sem negar o que quebrou, e preencher as fissuras com o que ainda havia de melhor.

Mara: “De pé” traz a voz mais firme do conjunto: “É o homem que ficou de pé quando era mais fácil ir embora.” E “Sem memória do escuro” oferece a imagem do sol que atravessa o horizonte sem carregar a noite anterior — não como promessa, mas como possibilidade.

Pip: Da reconstrução para o alicerce — que é exatamente o que o próximo bloco pergunta.

Raiva e fundação do eu

Mara: “Perene” propõe uma reciprocidade total: “Eu só faço sentido quando moras em mim.” Não é dependência — é reconhecimento mútuo como estrutura.

Pip: E “Rábico” coloca o lado instável dessa mesma identidade: “Raiva acesa: perco o fio do sentido, falo e me desfaço.” Três linhas que mostram o que acontece quando a fundação treme.

Mara: Fundação e desfazimento no mesmo ciclo. Faz sentido que estejam juntos.


Pip: O que une tudo isso é uma pergunta que nenhum dos poemas responde diretamente: o que sobrevive quando o resto vai?

Mara: A resposta parece ser: mais do que esperamos. Até o próximo episódio.