Avatar de Desconhecido

Testamento

Para ti, minha filha,

Deixo de herança todas as minhas mazelas.

Que tua alma se consuma feito a minha,

No caldeirão de malfeitos no qual fui marinada e ungida,

Posto que sou sagrada.

Mas que tu entendas, minha filha:

Até os meus malfeitos são perfeitos –

Milimetricamente perfeitos –

Lustrosos e rebuscados ao ponto de mentes menos sagazes os defenderem.

Sou teu arquétipo e não admito que diferente de mim sejas.

Sou tua juíza e teu algoz –

Cassei tua voz! –

E projeto em ti tudo que sou,

Que nego,

Que invejo –

Sou pura inveja! –

Que odeio,

Que gostaria de ter sido,

Que nunca fui.

Agradeças, minha filha.

E quando pensares em ser diferente,

Bem no fundo da tua mente,

Ouvirás a minhas voz e não te atentarás

Que sou dona do teu inconsciente.

Esta é para ti a minha fiel herança:

Tornei-te esta insegura criança,

Que jamais será capaz de perceber,

Até mesmo quando adulta,

Que és apenas mais uma de minhas infinitas –

E ainda assim narcisicamente perfeitas –

Lambanças.

Avatar de Desconhecido

E se fodeu toda

O bom dia

O boa noite

O papo furado

A gargalhada

A risada

O sorriso

O interesse genuíno

A vontade

A saudade

A ansiedade

A amizade

O companheirismo

O romantismo

A declaração de amor

O amor

A paixão

A inspiração

A sensação

O suspiro

O gemido

O tesão

A sedução

A comichão

A presença

A alegria

A felicidade

A promessa

A esperança

A crença

 

Deixo-te tudo de herança

 

Não

Nenhum de nós morreu

Mas se morreu o “nós”

Que tu fiques com tudo isso

E eu levarei comigo

Como lembrança

Tudo que se tornou coisado

Esquisito.

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