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As vidas que não vivemos

Às vezes me pergunto quem eu teria sido se tivesse seguido alguns caminhos até o fim.

Não por arrependimento. A essa altura da vida, aprendi que toda escolha carrega perdas inevitáveis. Mas há certas versões de nós mesmos que permanecem por perto, caminhando silenciosamente ao nosso lado, como sombras amistosas. Não nos assombram. Apenas nos lembram de que a vida poderia ter sido diferente.

Durante muitos anos, toquei violão clássico. Estudei com disciplina, investi tempo, sonhos e incontáveis horas diante das partituras. Houve um momento em que a possibilidade de me profissionalizar não parecia distante. Consigo imaginar aquele jovem seguindo por esse caminho, dedicando a vida aos palcos, aos estudos, à música. Em algum lugar da minha imaginação, ele existe. Talvez tenha envelhecido com os dedos marcados pelas cordas e uma coleção de concertos na memória.

Mas não fui eu quem viveu essa vida.

A vida que vivi foi outra.

E isso me faz pensar que somos habitados por versões de nós mesmos que nunca chegaram a nascer completamente. O professor que não fomos. O viajante que nunca embarcou. O escritor que demorou anos para começar a escrever. O homem que tomou um rumo quando poderia ter escolhido outro.

Durante muito tempo enxerguei essas vidas não vividas como renúncias. Hoje as vejo como testemunhas. Elas me lembram que a existência nunca foi um trilho único, mas uma rede infinita de possibilidades. A cada escolha, salvamos uma história e deixamos dezenas para trás.

Talvez seja por isso que, de tempos em tempos, eu me pegue imaginando esses outros “eus”. Não para desejar suas vidas. Nem para corrigir o passado. Apenas para reconhecer que todos eles contribuíram para quem sou hoje. Afinal, cada caminho abandonado ajudou a construir o caminho percorrido.

A maturidade me ensinou algo curioso: não é necessário viver todas as vidas para que elas tenham significado. Algumas existem apenas para nos mostrar que o mundo era maior do que imaginávamos e que, apesar disso, seguimos adiante.

Quando penso no músico que quase fui, não sinto tristeza. Sinto gratidão. Ele me ensinou disciplina, sensibilidade e beleza. Não desapareceu. Continua morando discretamente em mim, em cada melodia que ainda me comove, em cada acorde que meus dedos insistem em procurar depois de tantos anos.

Talvez seja assim com todos nós.

Carregamos dentro de nós uma pequena multidão de pessoas que quase existiram.

E, de alguma forma misteriosa, elas continuam nos acompanhando pela vida.

Como escreveu Viktor Frankl:

“O homem não é apenas o que é, mas também aquilo que poderia ter sido.” — Viktor Frankl

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