Seu Almeida chega às sete
e pede o de sempre:
pingado, sem açúcar,
na xícara de borda lascada
que o balconista já separa
sem perguntar.
Hoje ele não abre o jornal.
Gira a xícara no pires,
meia volta, meia volta,
como quem dá corda
num relógio antigo.
Na mesa ao lado,
uma moça de crachá
encara o celular
e o café puro, intocado,
como quem espera
que um dos dois
fale primeiro.
O balconista conhece o silêncio.
Já viu muito homem
decidir vender a casa
entre o primeiro gole e o segundo,
muita mulher
desistir de uma viagem
antes do café esfriar.
Seu Almeida bebe o último gole,
olha o fundo
como quem lê uma carta
e deixa o troco na mesa.
Hoje vai ligar pro filho.
A moça, enfim,
toma o café, frio,
e digita: “aceito”.
O balconista recolhe as xícaras,
lava, enxuga,
põe de volta na prateleira.
Amanhã, às sete,
outras decisões
vão esquentar as mãos de alguém.

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