Estou na beira.
Ninguém me empurra,
nada me prende.
O chão é firme.
Não é a queda
que me tira o ar.
É saber
que eu poderia.
Que um passo só,
meu, inteiro,
mudaria tudo.
Olho pra baixo
e vejo menos o abismo
do que todas as portas
que se abrem nele.
Tremo,
não por fraqueza,
mas porque sou livre
e a liberdade
não tem corrimão.
Recuar também é escolha.
Ficar também é salto.
Então respiro,
deixo a tontura passar por mim
e escolho,
de olhos abertos,
o próximo passo.
Sobre o poema
Para Søren Kierkegaard, considerado o pai do existencialismo, a angústia não é medo. O medo tem objeto: a gente teme algo concreto. A angústia é diferente, nasce diante do nada, das possibilidades em aberto. Por isso ele a chamou de “vertigem da liberdade”. Quem olha do alto de um precipício não sente tontura só pelo risco de cair, mas por saber que poderia se jogar. A angústia, então, não é um defeito a ser curado. É o sinal de que somos livres, e quem aprende a atravessá-la aprende a escolher de verdade.