Dizem, meio rindo,
que eu tenho alma de mulher.
Alguns dizem com carinho.
Outros, com a sobrancelha erguida,
como quem descobre um defeito
ou insinua um segredo.
Eu choro em filme.
Me emociono com o mar.
Lembro do perfume das pessoas
e da cor exata de uma tarde.
Escrevo versos
desde os catorze anos.
Para alguns homens
isso é ameaça.
Eles precisam de couraça,
de voz grossa,
de não sentir em público,
e confundem o que não entendem
com o que temem ser.
Mas o que mora em mim
não é desejo trocado.
É uma voz antiga
que sabe cuidar,
que sabe esperar,
que olha o mundo
pelo lado de dentro.
Não vou expulsá-la
para caber no molde.
Já fui pai e mãe
quando precisei.
E se isso me faz menos homem
aos olhos de quem mede,
que meçam.
Eu prefiro ser inteiro.
Sobre o poema
Para Carl Jung, todo homem traz no inconsciente uma imagem feminina, que ele chamou de anima, e toda mulher traz uma imagem masculina, o animus. Isso não tem nada a ver com orientação sexual. A anima é, no homem, a parte que sente, que intui, que se emociona e cria vínculos. O animus é, na mulher, a parte que afirma, que decide, que busca sentido e direção. Os dois são forças da alma, e não papéis sociais.
Jung dizia que quanto mais alguém se agarra a uma identidade rígida, mais essa outra parte fica reprimida. E o que reprimimos não some. Volta como irritação, como projeção, às vezes como zombaria do outro. Integrar a anima ou o animus, para ele, era um passo da individuação, o caminho de nos tornarmos quem somos por inteiro.