Não era perfume.
Era a pele dela, o cheiro de gente,
o que ficava no travesseiro,
na curva do pescoço,
no calor entre as coxas,
era ela inteira,
sem nada emprestado.
Antes, houve o olhar, a conversa, o riso,
e o corpo só confirmou
o que a alma já tinha escolhido.
Hoje fecho os olhos e procuro esse cheiro,
e só encontro o vazio que ele deixou.
Não lembro do cheiro.
Lembro que lembrava,
lembro da lembrança
de quanto era importante lembrar,
e de tanto lembrar que esqueço,
esqueço até de esquecer.
E carrego essa falta
como uma ferida aberta,
que não toco,
na vã esperança
de que um dia cicatrize.
