Sentei na areia
como quem chega a um lugar
que já conhecia por dentro.
À minha frente, duas águas.
Uma, mansa, verde,
dessas que deixam a gente boiar
sem medo de afundar.
A outra, além das pedras,
quebrando branca,
batendo, voltando,
batendo de novo,
como quem não sabe parar.
Reconheci as duas.
Moram em mim há anos.
A lagoa é o que eu queria ser:
quieto, aberto,
um lugar onde alguém pudesse entrar
e ficar.
O mar é o que eu fui:
onda sobre onda,
guerra sobre guerra,
espuma para ninguém chegar perto.
E entre as duas, as pedras.
Postas ali para separar,
para proteger a calma
da fúria do lado de fora.
Também as conheço.
Carreguei pedras assim nos ombros,
no pescoço,
no peito que não deixava o ar descer.
Mas hoje vi uma coisa
que ninguém tinha me contado:
as pedras não fecham tudo.
Há uma passagem.
E é por ela que a lagoa chega ao mar
e o mar entra na lagoa,
sem que uma destrua a outra.
Lá em cima, a igreja branca
assiste a esse encontro há séculos.
Não intervém.
Só espera.
Como quem sabe
que certas coisas
levam o tempo que levam.
Uma bandeira vermelha pede cuidado.
Eu aceito o aviso.
Ainda há dias de mar bravo.
Mas pela primeira vez
entrei na água devagar,
e não precisei escolher
entre a calma e a força.
Eu não era nenhuma das duas.
Era o lugar onde se encontram.
Sobre o poema
Passamos boa parte da vida em guerra com nós mesmos. Queremos ser só a parte mansa e lutamos para calar a outra, a que se agita, se defende e quebra contra tudo. A Terapia de Aceitação e Compromisso, desenvolvida pelo psicólogo americano Steven Hayes, propõe outro caminho. O sofrimento cresce justamente quando tentamos eliminar o que sentimos. Pensamentos e emoções difíceis não precisam ser vencidos, e sim acolhidos, enquanto seguimos na direção do que tem valor para nós. A ACT fala também do “eu como contexto”: não somos a onda nem a calmaria, somos o lugar onde as duas acontecem. O poema faz esse percurso. Começa com alguém que se confunde com as próprias águas, que quer ser a lagoa e rejeita o mar que foi, e termina descobrindo que nunca foi nenhuma das duas. Em Saquarema, a lagoa e o mar se encontram sem que um destrua o outro. Talvez seja essa a lição: as pedras que erguemos para nos proteger podem ficar, desde que deixem uma passagem.
