Entre duas ilhas,
há caminhos sob as águas.
É nas profundezas
que as correntes conversam,
trocando segredos antigos
que a superfície ignora.
Amar talvez seja isso:
não encontrar alguém
que pense como nós,
mas alguém disposto
a lançar pontes invisíveis
sobre as águas da diferença.
Porque o silêncio prolongado
faz dos gestos ruínas,
e da espera, um oceano.
Uma palavra, porém,
quando nasce da escuta,
abre clareiras.
Uma pergunta sincera
afasta a névoa dos portos.
Uma resposta honesta
devolve nome aos caminhos.
E, pouco a pouco,
aquilo que parecia distância
revela-se apenas
um mapa incompleto.
Os rios não chegam ao mar
porque venceram as montanhas.
Chegam porque seguiram correndo,
curva após curva,
encontro após encontro,
conversando com a terra.
Assim também os afetos.
Não sobrevivem pela força,
nem pela certeza,
nem pela razão.
Sobrevivem porque duas vozes,
mesmo imperfeitas,
continuam procurando uma à outra
através do mundo.
E quando se encontram,
por um breve instante,
a linguagem se torna casa.