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Cassandra

Havia um jardim inteiro
florescendo diante de mim.

E eu,
com os olhos cheios de incêndio,
via o inverno chegar
muito antes da primeira folha caída.

Não era dom.

Era peso.

Os deuses chamam de profecia
aquilo que os homens chamam de exagero.

Então falei.

Falei dos cavalos de madeira,
das portas abertas,
dos ventos que mudavam de direção.

Falei das ausências
antes que elas aprendessem seu nome.

Mas cada palavra
caía aos pés do mundo
como uma folha seca.

Ninguém ouvia.

E pouco a pouco descobri
que a maldição de Cassandra
nunca foi conhecer o futuro.

Foi perceber a ausência
quando ela ainda se chamava esperança.

E a dor verdadeira não era prever a ruína.

Era enxergar o fim no horizonte
e ainda assim caminhar,
como quem prefere a esperança
à própria profecia.

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Cassandra foi uma princesa de Troia e sacerdotisa de Apolo na mitologia grega. Ela recebeu o dom da profecia, podendo ver o futuro com clareza, mas foi amaldiçoada para que ninguém acreditasse em suas previsões.

Segundo a versão mais conhecida do mito, Apolo concedeu a Cassandra o poder da adivinhação. Depois que ela rejeitou o deus, ele transformou o presente em maldição: suas profecias continuariam sendo verdadeiras, mas seriam sempre ignoradas ou ridicularizadas.

Cassandra previu diversos acontecimentos importantes:

  • Alertou que Páris traria a ruína de Troia.
  • Advertiu os troianos sobre o perigo do Cavalo de Troia.
  • Anteviu a própria morte e a de Agamêmnon após a guerra.

Em todas essas ocasiões, ela estava certa. E em todas elas, foi ignorada.

Por isso Cassandra se tornou um arquétipo que atravessou os séculos. Hoje, falar em uma “Cassandra” é falar de alguém que percebe uma verdade incômoda antes dos outros, tenta alertar, mas não encontra quem a escute.

Talvez seja justamente isso que torna a personagem tão poderosa para a poesia: a tragédia dela não é saber o futuro. A tragédia é carregar uma verdade no coração e assistir aos acontecimentos seguirem seu curso, enquanto suas palavras se perdem no vento.