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O que se faz sem vontade

Não é sobre gostar.
É sobre levantar da cama
quando o corpo pede mais escuro,
é vestir a roupa certa
para o dia que não escolhemos.

Tem gente que chama isso de disciplina.
Eu chamo de promessa feita a alguém
que ainda não chegou —
a versão de mim que vai colher
o que a de hoje plantou mesmo sem querer.

Às vezes é só isso:
lavar a louça que não sujei sozinho,
responder o que dói responder,
cumprir o horário que ninguém cobra,
seguir o plano mesmo cansado.

Ninguém aplaude o gesto pequeno.
Não tem plateia para quem varre,
paga, cuida, cumpre —
para quem faz a coisa certa
sem que ninguém esteja olhando.

Mas é aí que mora o que sobra depois:
não o instante,
o edifício.

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Meu jardim

Nem sempre recebi de volta

As flores que gentilmente

E com muito amor

Ofereci

 

Mas a questão não é essa

E falo disso com um sorriso aberto

E sem pressa:

Eu preciso oferecer flores

Pois a minha vida é um imenso e inesgotável jardim

E nele planto amores

E colho flores

As mais lindas

As mais diversas

Pois são amores

À beça.