Avatar de Desconhecido

Insanidade

Insanidade é acreditar
Que o outro é insano
Apenas porque
A insanidade do outro
É diferente da sua.

Avatar de Desconhecido

Grandes mestres da poesia

Não foi por acaso que acabei de publicar algumas obras de grandes poetas e poetisas. Cada um deles com suas formas únicas de nos dizer o que vemos e vivemos, e que muitas vezes não conseguimos traduzir em palavras, quanto mais em versos.

Confesso que cheguei a me sentir ridículo na medida em que lia e relia as palavras dos mestres. E ao mesmo tempo, me sentia um aprendiz. E será que um aprendiz deve sentir vergonha de não ser capaz de criar algo tão magnífico quanto seus mestres? Não. Creio que não.

Eu, enquanto escrevo, nunca me preocupo com o que vão achar de minhas palavras. Elas são minhas, e nelas encontro algum sentido para o que vejo e sinto. Minhas poesias refletem o melhor e também o pior de mim.

Enfim… Minhas poesias são sinceras, assim como sou sincero em tudo que digo e faço. O resto eu deixo por conta de quem me lê. Sinto-me um privilegiado quando sou lido.

E portanto, muito obrigados aos grandes mestres! Simplesmente obrigado. Vocês me fazem e me fizeram ver que eu também sou capaz (ainda que seja só de tentar).

Avatar de Desconhecido

Amor é fogo que arde sem se ver – por Luís de Camões

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Avatar de Desconhecido

Lápide – por Ariano Suassuna

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

Avatar de Desconhecido

Vozes d’África – por Castro Alves

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus? …

[…]

Hoje em meu sangue a América se nutre

Condor que se transformara em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p’ra os crimes meus!

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

Avatar de Desconhecido

Ora (direis) ouvir estrelas! – por Olavo Bilac

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto …

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Avatar de Desconhecido

A um poeta – por Olavo Bilac

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego

Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade

Avatar de Desconhecido

A lágrima – por Augusto dos Anjos

Faça-me o obséquio de trazer reunidos
Cloreto de sódio, água e albumina…
Ah! Basta isto, porque isto é que origina
A lágrima de todos os vencidos!

A farmacologia e a medicina
Com a relatividade dos sentidos
Desconhecem os mil desconhecidos
Segredos dessa secreção divina”

O farmacêutico me obtemperou.
Vem-me então à lembrança o pai Yoyô
Na ânsia física da última eficácia…

E logo a lágrima em meus olhos cai.
Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai
Do que todas as drogas da farmácia

Avatar de Desconhecido

Cantiga para não morrer – por Ferreira Goulart

Quando você for se embora,

moça branca como a neve,

me leve.

Se acaso você não possa

me carregar pela mão,

menina branca de neve,

me leve no coração.

Se no coração não possa

por acaso me levar,

moça de sonho e de neve,

me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa

por tanta coisa que leve

já viva em seu pensamento,

menina branca de neve,

me leve no esquecimento.

Avatar de Desconhecido

Autopsicografia – por Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

pessoa