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Dois inteiros

Não quero te encontrar
para me completar.
Já cheguei inteiro,
com as minhas falhas no lugar.

Não te peço que me salve,
nem que caiba em mim.
Te peço só
que venha de pé.

Já amei de joelhos.
Já fiz de mim tapete
para que alguém pisasse macio
no caminho de ir embora.

Amor que se apoia na fraqueza
vira muleta,
e quem vive de muleta
um dia esquece de andar.

Eu quero o outro amor,
o que nasce da força:
duas pessoas que poderiam
seguir sozinhas
e escolhem, todo dia,
seguir juntas.

Quero o café dividido,
o silêncio que não pesa,
a mão que me procura
sem precisar de motivo.

Quero que você tenha
os seus livros, os seus dias,
os seus amigos, a sua voz,
e ainda assim volte.

Sem coleira,
sem dono,
sem ninguém sumindo
dentro do outro.

E se um dia der medo
de tanta liberdade,
que a gente lembre:
só fica de verdade
quem é livre para ir.

Só dois inteiros
lado a lado,
e o espaço entre eles
cheio de liberdade.


Sobre o poema

Para Simone de Beauvoir, muitas vezes o amor foi vivido como renúncia: um se anulava para existir através do outro. Ela chamou isso de amor inautêntico. O amor autêntico, para ela, é o encontro de duas liberdades, em que ninguém é posse e ninguém se dissolve. Em “O Segundo Sexo”, ela sonha com o dia em que se possa amar não a partir da fraqueza, mas da força, e em que o amor seja fonte de vida, e não de perigo.