É sobre ter paciência
Entender que precisa madurar
Antes de colher
É sobre o amor
Amargo feito fel
Que vira brigadeiro de colher

Nem sempre recebi de volta
As flores que gentilmente
E com muito amor
Ofereci
Mas a questão não é essa
E falo disso com um sorriso aberto
E sem pressa:
Eu preciso oferecer flores
Pois a minha vida é um imenso e inesgotável jardim
E nele planto amores
E colho flores
As mais lindas
As mais diversas
Pois são amores
À beça.

As horas avançam
E a necessidade encrustrada desperta
E revela planos
Tramóias e enganos
Verdades incompletas
Que não escondem
A porta que deixas aberta
Em teu peito
Durante a noite
Onde me escondo
Deliciosas descobertas
E no teu sussurro desconexo
No teu gemido que sai rouco
Nas marcas que deixas em meu corpo
No teu vigor que me deixa louco
Entrego-me
Renego-me
Nossa unicidade plena
Não é doxa ou paradoxa
É teorema
E nessas sessões de tortura consensual
Reciprocidade arreganhada
Desavergonhada
Toques e retoques
Tudo pleonasticamente abissal
Fazemos-nos homem e mulher
E que seja feito o que o universo quiser
Desse fogo que nos rasga
Nos assa e amassa
Enquanto nos comemos à colher
E a manhã que chega úmida
Fronhas e lençóis
Que escorrem
E que nos fazem lembrar
Que não há melhor prazer na vida
Que por a roupa de cama para lavar.

Há dias em que acordo
E simplesmente não me reconheço
Não me suporto
E nesses dias finjo que eu sou
A pessoa do dia anterior
E as cizânias que brotaram hoje
Eu ressemeio ontem
E as que de fato prejudicam o hoje
Sem dó algum eu corto.
