Eu digo que não!


Eu digo que não!


Sonhar com possibilidades
É como planejar o planejamento
Batalha que já se inicia perdida
Sem qualquer tipo de alento
Sonhos se vivem
A vida deve ser sua materialização
Sonhar e não realizar extingue
O sonho em si mesmo, é sonhar em vão.

Um belo vestido
Uma bela festa
A melhor bebida
A melhor comida
Um coração rouco
De tanto gritar por socorro
Um coração morto
Apesar de ainda vivo
Esconda-se no perfume, na maquilagem
No sorriso plástico, no corpo perfeito
Esconda-se, não deixe que eu ache
Para que se desnude sem rodeios
E por fim, quando o cansaço chegar
Sozinha ou acompanhada
Em todo e qualquer lugar
Um nome e um amor que consome
Que chegou sem pressa e sem avisar
E sem permissão ou consentimento
Decidiu que vai ficar.

Nesse momento, não preciso de metáforas, metonímias, catacreses, perífrases… Quero abundantes hipérboles, pleonasmos e anáforas. Quero que as palavras rasguem meu corpo feito navalhas. Quero que jorrem sangrentas obviedades. Quero purgar a realidade. Quero olhar nos olhos da verdade.
Diga-me! Não importa se nascerão deuses ou demônios! Diga-me!
E ainda que eu vire pó, do pó ascenderei ao céu
Não sei se como vítima, juiz ou réu
Meu coração não sabe ficar ao léo
Diga-me! Antes que uma surdez catastrófica me reclame!
Diga-me! Não espere que eu clame! Diga-me!
Ou não diga… E não direi também.

Andando pelas brumas da minha alma
Gostei muito do que vi:
Quixotesco
Cavaleiro
Andante e errante
Mas sempre cavaleiro
Confrontei gigantes
Exércitos alucinantes
Libertei escravos
E me tornei um herói
Ainda que desconhecido
Mas nunca imaginário
Daqueles que maturam
E que o tempo não corrói
Dulcinéia del Toboso?
Nunca ouvi falar!
Meu mundo é real
Mas minha busca imaterial
E nas brumas da minha alma
Uma dama caminha
Não sei seu nome
Só sei que ela é minha…
Quixotescamente minha.

Com o passar do tempo, a gente se acostuma
Meio felizes
Meio presentes
E dói assumir que também estamos
Ainda que juntos
Também meio tristes
Meio ausentes
Nos disseram que era para sempre
Nos disseram que era seguro
E construímos em cima disso
Planejamos e sonhamos
Até que um dia percebemos
Que mudamos
Que parte de nós ficou pelo caminho
A casa linda
O carro novo
As viagens
O almoço de domingo com nossos filhos
Tudo lindo e perfeito
Mas dentro do meu peito
Um vazio infinito
Eu não queria que fosse assim
Eu não procurei por nada
Só senti que precisava me achar
E nessa busca, sim
Resolvi não mais me trair
Não mais para mim mesma mentir
É fato
Estou amando outra pessoa
Não sei nem por onde começar
O que irão pensar de mim?
O que você irá pensar de mim?
Ingratidão, safadeza
Julgamentos infinitos
Mas não importa, não interessa
Não acabará quando um de nós dois sair de casa
Já está acabado, eu admito
Pensei em permanecer por pena
E percebi como estava sendo arrogante
Sim, você sabe viver sem mim
E você merece alguém que te ame
Que esteja inteira com você
Como um dia eu já estive
Eu sei, vai ser duro
Difícil falar em separação
E nossos filhos? Como ficarão?
Eu pesei tudo isso
E por mais que não seja fácil
Não é impossível
E sairemos vencedores disso
No fundo, impossível seria
Eu abrir mão do meu direito de ser feliz
E talvez pior do que isso…
Tirar o seu direito de ser feliz
Com respostas evasivas
E todos os tipos de desculpas
Eu não posso mais mentir
Nem para você e nem para mim
Você consegue entender isso?
Realmente chegamos ao fim
O amor nos uniu, um dia
Mas esse amor virou comodismo
E nem você e nem eu
Somos covardes
E não é covardia que queremos ensinar
Para os nossos filhos
Aliás, eles ficarão bem
Talvez não entendam no início
Mas são nossos filhos
E por mais que estranhem
Vão entender tudo aos poucos
E nós dois os ajudaremos no que for preciso
No fundo, essa minha despedida
É uma declaração de amor
Doída, acredite!
E de profundo respeito
Pela pessoa que tanto amei um dia
Devo tanto a você
Que não me resta opção alguma
Além de pagar com a mais pura verdade
E essa verdade te fará feliz
E eu ficarei feliz também
Com as boas e inesquecíveis lembranças
Do que já fomos um dia.
Contratei uma carpideira
E ela se negou a chorar
Depois de ouvir minha desgraça
Disse que eu deveria me alegrar
Resultado?
Não paguei pelo serviço
E fomos tomar um chopp no bar
Rimos muito!
Há graça no sofrer sem necessitar.

Podes negar minha presença
Mas não podes negar a falta que faço
Podes negar minha voz
Mas não o que eu te digo em silêncio
Podes negar meus beijos
Mas não o desejo que transborda de teu corpo
Podes negar o óbvio
Mas não o que obviamente sentes
Podes me negar todos os dias
Várias vezes ao dia
Podes fazer isso por semanas
Por meses, por anos
Tu podes tudo
Podes até escolher
Não seres feliz
Mas o tempo há de mostrar
Que tudo que fiz
Foi mostrar o que teu coração
Que pulsa descompassado
Escancaradamente diz
E quando a noite fechares os olhos
Sozinha ou acompanhada
Ouvirás o chamado que de ti emana
Angelical, não?
É tua alma
Que sempre
Ruidosa e desesperadamente
Me chama.
Me chama..
Me chama…

Conversei com Fernando Pessoa em sonhos
O resultado?
Já não sei se sou pessoa
Já não sei se me chamo Fernando
Já não sei se de fato conversei
E muito menos se sonhei!

Sinto como um animal
Floresço como um vegetal
Embruteço como um mineral
O meu reino atual?
Pimenta-do-Reino.
