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Unhas vermelhas

Seriam só unhas

Se não fossem tuas

Tais navalhas divinais

Sobrenaturais

Surreais

Animais

 

Das tuas garras sou presa

Prato principal e sobremesa

De banquete que nunca acaba

De onde sempre se espera

E se quer mais

Sempre muito

Muito além do mais

 

Tal cor é conveniente

Pois é também da cor

Vermelha

E não por acaso se assemelha

À cor do sangue

Que jorra aos borbotões

Enquanto repousamos na cama

Nossos frenéticos

Pulsantes

Ululantes

Urrantes

Alucinantes

Corações

 

Unhas vermelhas

Eram só unhas

Mas como são tuas

Tinham que ser vermelhas

Pois tu bem sabes

Que do amor sou daltônico

Não vejo perigo

Só paixão e devassidão

Seria eu anacrônico?

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Algodão doce

Que me tirem tudo

Menos o meu direito de sonhar

Momentos melhores virão

E sonhos não serão mais sonhos

E eu os poderei tocar

 

Eu faço questão de muito

Mas meu muito é imaterial

E ainda assim é intenso, extenso

É de tirar o fôlego

É de me mostrar que sou mortal

 

E assim, eu erro acertando

E acertando, também por vezes erro

É que o sonho, sempre presente

Nunca, jamais ausente

Eu copiosamente venero

 

E se tropeço e caio

Se sou ferido por espinhos

Levanto-me sujo de sangue

Disfarço e sigo adiante

Meu expurgo faz parte do meu caminho

 

Só peço humildemente a Deus

Que esses sonhos me trouxe

Que alegre meu coração amuado

Pois eu sei que lá, quando eu chegar

Todas as nuvens serão de algodão doce.

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Diga-me!

Nesse momento, não preciso de metáforas, metonímias, catacreses, perífrases… Quero abundantes hipérboles, pleonasmos e anáforas. Quero que as palavras rasguem meu corpo feito navalhas. Quero que jorrem sangrentas obviedades. Quero purgar a realidade. Quero olhar nos olhos da verdade.

Diga-me! Não importa se nascerão deuses ou demônios! Diga-me!

E ainda que eu vire pó, do pó ascenderei ao céu

Não sei se como vítima, juiz ou réu

Meu coração não sabe ficar ao léo

Diga-me! Antes que uma surdez catastrófica me reclame!

Diga-me! Não espere que eu clame! Diga-me!

Ou não diga… E não direi também.

megafone

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10 dias

Sangue abundante escorre do meu nariz. Não sinto dor. Meu rosto está adormecido. Minha filha, ainda por completar dois anos, está assustada. Se jogou para trás enquanto brincávamos na cama e acertou com a cabeça o meu nariz, que se partiu imediatamente.

O 911 é acionado. Chegam em 3 minutos. Um pano de prato coberto de sangue no meu rosto tenta estancar o sangramento. Os socorristas me examinam, verificam se estou vivo (dessa parte eu já sabia), e me dizem o seguinte:

“Podemos cobrar USD 1,000 para levar o senhor até o hospital ou alguém pode leva-lo. O senhor está estável. Basta assinar essa ficha dizendo que dispensou a remoção para o hospital e está tudo certo.” Assino e parto para o hospital.

Parece um hotel. De certa forma, eu estava destoando. Camisa manchada de sangue, pano de prato no rosto. Sou acolhido antes mesmo de preencher uma ficha.

– Isso sempre acontece com o senhor? – pergunta o enfermeiro da triagem.

– Sim… Sempre que minha filha me dá uma cabeçada.

Na prática, ele estava fazendo o papel dele. Era parte do script do atendimento. Vai que sou vítima de violência familiar?

Depois do X-Ray, foi constatada a fratura. O médico foi claro: “Você tem 10 dias para operar e colocar o nariz no lugar. Caso contrário, será necessário quebrar de novo para poder reposiciona-lo.”

Procurei um ENT (ear, nose and throat) Surgeon, e marcamos a cirurgia. Cheguei cedo no dia. Deram-me algum antinflamatório e disseram que aplicariam a anestesia. E nisso, chega o anestesista: “Onde estão os seus exames pré-operatórios? Não fez nenhum? Não tem problema. Assina aqui. Se morrer, a responsabilidade é sua.”

Levantei-me e fui procurar a médica. “Eu pensei que você sabia que tinham que ser feitos.” – disse ela. Certo… E eu os faria sem pedido médico e o plano cobriria tudo, não é mesmo? Além disso, sou médico e não economista… Sofrível.

Fiz todos os exames, sempre lembrando dos tais 10 dias. Até exame do coração com contraste eu fiz (um pedido completamente fora do normal para a minha idade de acordo com os padrões brasileiros). Tudo ok. Eu podia operar.

“Ih… Essa semana estou fora. Não vou poder te operar. Volto semana que vem. Não tem problema. Eu quebro seu nariz de novo e a gente resolve isso.”

Não. Desisti da cirurgia. Dane-se! Fico com o rosto do Rocky Balboa, mas ninguém vai quebrar meu nariz de novo.

Ligo para minha mãe e conto a história. Enquanto isso, aliso meu nariz de cima para baixo. Ouço um barulho, um estalo. Meu nariz se movimentou. Olho-me no espelho. O nariz estava de volta no lugar.

Moral da História: Não deixe sua filha quebrar o seu nariz mais de uma vez.

10dias

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Fecha a conta!

Se há uma cor que nos representa?

Vermelha

 

É sangue

É amor

É paixão

É comichão

 

Sim…

Comi no chão

Comeria onde fosse

Como fosse

Quando fosse

O importante são

Os sabores

Os temperos

Os destemperos

Os exageros

A cor vermelha

Que você me trouxe

 

Bem ou mal passada?

Ao ponto

Vermelha

Para escorrer em mim

Me inundar de prazer

E deixa-la ruborizada

Vermelha

Envergonhada

Da sua explosão

Da nossa depravação

Do puro prazer

 

Não se trata de

Querer ou não querer

Estou com fome

Quero comer você

 

Fecha a conta, garçom!

Ou seremos presos

Por mostrar de verdade

O que é sobre a mesa

 

Vermelha

Nossa cor é

Sempre vermelha

Nossos corações

No ponto

Banquete indecente

Eu e você.

carne-ao-ponto

 

 

 

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Descartando Descartes

O que fazer com o que não se entende?

Paciência dizem uns

Sabedoria dizem outros

Terapia dizem alguns

Bebida dizem quase todos!

O que eu digo?

Não aceito e duvido!

 

 

Eu sei dos meus motivos!

A grande verdade

É que minha mente cartesiana

Se nega a entender

Conjunturas e fatos são irrelevantes

Quando é o coração que está a doer.

 

Sangra, pobre coitado!

Ainda que com a carcaça lançada aos abutres

A alma facciosa não desapega-se de sua cruz.

dor de amor

 

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Nunca brinquem quando forem doar sangue!

– O senhor tem alguma doença sexualmente transmissível?
– Não.
– Já teve hepatite?
– Não.
– Dormiu bem essa noite?
– Sim.

– Ok, o senhor está apto a doar sangue. Como não é a primeira vez que doa, já sabe como proceder após a doação, correto? Precisa se hidratar, não pode fazer força com o braço, não pode beber hoje…
– Como assim não posso beber hoje?
– Não pode por conta da doação…
– Então, não vou doar! (levanto-me e finjo que vou embora)
– …
– Oi, era só uma brincadeira…
– O senhor é dependente do álcool?
– De forma alguma… Eu estava brincando…
– O senhor está fazendo tratamento para se livrar da dependência?
– Eu estava brincan…
– O senhor bebeu hoje???

15 minutos depois…
– Ok, mas não brinque assim novamente. Nosso trabalho é muito sério.
– Eu sei… Eu estava só brincando, já disse.
– Quantos anos o senhor tem?
– Quarenta e quatro.
– Não parece…
– Isso foi um elogio?
– Não.