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Arqueologia


Mão no peito, olhos no chão,
procuro o dia em que a viga cedeu.

Não foi o temporal, foi antes,
foi a fresta que eu chamei de nada.

Fiquei anos na soleira,
com a chave que nunca girou,
enquanto lá dentro
sempre havia um móvel a arrastar.

Arranquei meu próprio chão
para servir de alicerce
a uma casa
que só era olhada da janela.

Pego a caneta como quem cava,
camada por camada de desculpa,
e cada verso desenterra
um tijolo que eu mesmo assentei torto.

Outros, eu sei, foram tirados
um a um, em silêncio,
por mãos que nunca disseram adeus.

Não me cabe contá-los.
Me cabe só não esquecer os meus.

A luz já não atravessa,
mas ainda ilumina o chão,
e no chão, pela primeira vez,
leio a planta da casa que caiu:
cômodos arrumados com cuidado
para quem nunca chegou a morar neles.

No fim, me devolveram a chave,
como se fosse a chave,
e não a casa,
o que eu tinha dado.

Não escrevo para reerguer
o que foi feito sobre areia.

Escrevo para saber
de onde vem a ruína.
E descubro, aqui embaixo,
que o fundo também é chão,
e que é dele, e não dos escombros,
que se dá o próximo passo.