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Os acolhimentos que nunca recebemos

Há acolhimentos que não perdemos. Porque nunca os tivemos.

Durante muito tempo, pensei que a falta fosse apenas a ausência de algumas pessoas. Hoje acredito que, muitas vezes, o que nos acompanha pela vida não é a saudade de alguém, mas a saudade de algo que nunca chegou a existir. Um elogio que nunca veio. Um pedido de desculpas. Um abraço depois de um dia difícil. Uma simples frase que dissesse: “Você não precisa enfrentar isso sozinho.” Em vez disso, aprendemos a seguir em frente. A suportar. A nos endurecer. Como viajantes que atravessam o inverno por tanto tempo que passam a acreditar que o frio é a condição natural da existência.

Talvez por isso a falta de acolhimento seja tão difícil de reconhecer. Porque ela nem sempre se apresenta como abandono. Às vezes se apresenta como comparação. Como expectativa. Como desaprovação constante. Como a sensação de que quem somos nunca é suficiente e de que seríamos mais amados se fôssemos outra pessoa. Há pessoas que crescem ouvindo quem deveriam ser, com quem deveriam se parecer, qual caminho teria sido melhor seguir. Às vezes a comparação acontece com irmãos. Às vezes com parentes. Às vezes com uma imagem idealizada de sucesso que ninguém consegue alcançar.

E pouco a pouco passamos a acreditar que existe algo errado em quem realmente somos. Não porque nos falte valor, mas porque fomos medidos por uma régua que jamais teve a intenção de nos compreender. Uma forma de rejeição particularmente silenciosa, que não nos diz abertamente que somos indesejados. Apenas nos faz acreditar que seríamos mais amados se fôssemos, de alguma forma, outra pessoa.

Talvez por isso tantas pessoas carreguem um sentimento persistente de inadequação. Não porque tenham fracassado, mas porque passaram anos tentando corresponder a expectativas que nunca foram suas. Existe uma solidão particular em viver sob esse tipo de pressão. A solidão de sentir que cada escolha precisa ser justificada. Que cada desejo precisa ser defendido. Que cada tentativa de autonomia será recebida como erro, ameaça ou ingratidão. E talvez uma das formas mais dolorosas de falta de acolhimento seja justamente esta: a sensação de que precisamos nos tornar outra pessoa para merecer amor.

Gostamos de acreditar que o amor está garantido pelos vínculos de sangue, mas nem sempre é assim. Algumas pessoas encontram na família o primeiro lugar de segurança. Outras encontram o primeiro lugar onde aprendem a medir palavras, esconder desejos, justificar escolhas e pedir licença para serem quem são. Há vínculos que parecem abrigo vistos de fora, mas que, por dentro, podem ser lugares de crítica, culpa, cobrança e diminuição.

Durante muito tempo, tentei separar amor de acolhimento. Tentei acreditar que uma coisa podia existir sem a outra. Talvez pudesse. Talvez, em alguma medida, ainda possa. Mas houve momentos em que essa distinção deixou de ser suficiente. Porque, quando alguém passa anos ouvindo que suas escolhas são ruins, que seus caminhos não prestam, que seus afetos são inadequados, que sua autonomia é uma ameaça e que sua própria forma de existir parece sempre errada, chega uma hora em que a pergunta deixa de ser apenas: “Por que não me acolhem?”. E passa a ser outra, muito mais dolorosa: “Será que me amam?”.

Essa talvez seja uma das dores mais difíceis de admitir. Porque há uma culpa quase automática em formular essa pergunta. Como se reconhecer a ferida fosse uma forma de traição. Mas existem experiências que nos conduzem até ela. Quando o olhar que deveria nos confirmar no mundo passa a nos fazer duvidar do próprio valor, a dúvida sobre o amor deixa de ser uma acusação e passa a ser uma consequência. Nem todo laço familiar é sinônimo de segurança. Às vezes, ele representa exatamente o contrário: o primeiro lugar onde aprendemos a nos defender. Pode haver sangue. Pode haver história. Pode haver convivência. Pode haver cuidado. Mas nada disso garante acolhimento. Fato é que nem toda família consegue ser lar.

Com o tempo, a falta de acolhimento produz um efeito curioso. Deixamos de procurá-lo onde ele poderia ser encontrado e passamos a buscá-lo justamente onde ele nunca esteve. Procuramos compreensão em quem nos julga. Procuramos validação em quem nos diminui. Procuramos carinho em quem oferece apenas migalhas. Procuramos abrigo em lugares onde sempre chove. Talvez porque exista dentro de nós uma esperança antiga e persistente: a esperança de que, desta vez, a porta se abra. De que, finalmente, alguém nos ofereça aquilo que tantas vezes nos foi negado. Mas algumas portas não foram feitas para acolher. E insistir diante delas não transforma sua natureza.

Existe ainda outra armadilha silenciosa. Muitas vezes não buscamos acolhimento em quem nos acolhe, mas em quem nos feriu. Como se uma parte de nós acreditasse que, se conseguirmos finalmente ser compreendidos por quem nos julgou, valorizados por quem nos diminuiu ou amados por quem nos fez duvidar do próprio valor, então todas as feridas anteriores serão corrigidas. Mas raramente funciona assim. O passado não se reescreve quando uma porta fechada finalmente se abre. E insistir nessa busca pode nos impedir de perceber os braços que já estavam e permanecem estendidos ao nosso redor.

Há pessoas que nos fazem sentir maiores. Há outras que nos fazem passar a vida tentando provar que merecemos ocupar um espaço ao seu lado. A diferença entre uma coisa e outra nem sempre é percebida de imediato. Às vezes passamos anos confundindo amor com aprovação, afeto com aceitação, acolhimento com a eterna tentativa de conquistar o direito de sermos quem já somos. Há pessoas que passam tanto tempo tentando merecer acolhimento que esquecem uma verdade simples: acolhimento não é prêmio. Não deveria ser a recompensa por sermos fortes o suficiente, bons o suficiente ou úteis o suficiente. Acolhimento é aquilo que recebemos justamente nos momentos em que estamos feridos, machucados, incapazes de provar qualquer coisa.

Talvez por isso algumas feridas demorem tanto a cicatrizar. Não porque continuem abertas, mas porque insistimos em levá-las ao mesmo lugar onde nasceram, esperando que alguém as cure. Existe uma grande liberdade em compreender que nem todo acolhimento virá das pessoas das quais gostaríamos de recebê-lo. Alguns chegarão de amigos, de amores românticos, e de relações construídas com base no franco interesse, admiração e respeito mútuos. Outros de desconhecidos. Outros ainda nascerão dentro de nós mesmos, quando aprendermos a olhar para nossas próprias fragilidades com menos severidade e mais compaixão.

Os acolhimentos que nunca recebemos deixam marcas. Mas também deixam uma escolha: continuar mendigando abrigo em portas fechadas ou finalmente reconhecer as casas que já estavam abertas o tempo todo. E, às vezes, a mais importante delas é aquela que carregamos dentro de nós.

A busca começa a cessar quando descobrimos que aquilo que procurávamos nas mãos dos outros já existia, silenciosamente, dentro de nós.

Como diria Carl Jung:

“O privilégio de uma vida é tornar-se quem você realmente é.”

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Vitamina D

No calçadão da praia, o sol me recebeu feito velho amigo.

Me deu um abraço forte, puxou uma cadeira e me pediu para sentar.

Perguntou da minha vida, dos meus sonhos, dos meus planos, e me ouviu sem pressa, sem me julgar.

Eventualmente, me olhou com profunda compaixão e empatia, e me incentivou onde eu parecia hesitar.

E antes de eu ir embora, me deu outro abraço, desta vez mais longo e forte, e disse que adoraria me ver com mais frequência, pois minha ausência era sentida por toda a gente.

Todos nós precisamos de sol. E que eu possa ser ao menos parecido com o sol na vida das pessoas. A tal da vitamina D é capaz de fazer milagres.

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Você não é perfeito (e nem eu)

“Vejam os absurdos que fizeram comigo! Sim, eles! Só não me perguntem (e se souberem ignorem) os meus mal feitos para com eles!”

Há momentos em que é preciso fazer um sincero e pretencioso mea culpa. É preciso olhar-se no espelho, de verdade, e reconhecer-se. É preciso não insistir em narrativas vitimistas, fantasiosas e falaciosas. É preciso parar de tentar defender o indefensável, o injustificável. É preciso olhar para dentro e admitir o dano que foi causado ao outro, ainda que sem querer.

A vida é isso. Não pode se ver como errado e se absolver aquele que não reconhece o próprio erro. Nem aquele que aponta os dedos em todas as direções em busca de culpados, quando deveria ao menos estar apontando alguns dedos para si mesmo. Nem aquele que foi imprudente ou mesmo inconsequente e não admite a possibilidade de ter se comportado de maneira inadequada. Nem aquele que acredita que na sua história, no seu curriculum, não há nenhum mal feito.

É preciso parar de achar que todos os outros são os culpados, menos o eu. Sim, o eu. O eu também erra ainda que de maneira involuntária. O eu não é perfeito e precisa se dar conta disso. O eu não está acima do bem e do mal. O eu não pode apenas querer ser desculpado sem nunca se culpar ou mesmo se responsabilizar para se desculpar em seguida. O eu precisa se colocar no lugar dos outros para entender o que está acontecendo em sua própria vida. O eu precisa saber que a vida é mais do que a percepção que ele tem de si mesmo.

Não, isso não é obrigatório. Nada é obrigatório. Ninguém precisa mudar para deixar os hábitos ruins de lado. Ninguém precisa abandonar as desculpas e as justificativas. Ninguém precisa tentar entender melhor o mundo dos outros e o mundo ao seu redor. Ninguém precisa reconhecer que não é perfeito. Ninguém. Já para ser alguém, é preciso tudo isso.

As pessoas tendem a perder a paciência com os perfeitos, porque sabem que eles não existem. A perfeição é uma afronta para quem possui um mínimo de inteligência. Pior: a perfeição impede que a pessoa seja de fato perdoada. Perdoar o perfeito? Por quê? O perfeito sequer precisa disso. O perfeito só faz o que é certo e está implícito que todas as culpas e responsabilidades no transcorrer de sua vida são dos outros, sempre.

Sim, tem a ver com humildade. Tem a ver com baixar a guarda. Tem a ver com procurar o diálogo. Tem a ver com o “eu queria entender o porquê de você estar assim comigo”. Tem a ver com o “será que eu fiz algo tão grave e não percebi?” Tem a ver com o “será que eu dei motivos?” Tem a ver com reconhecer que a realidade vista pelos olhos dos outros pode ser diferente da que se imagina. Tem a ver com reconhecer uma eventual miopia. Tem a ver com querer resolver em definitivo os problemas. Tem a ver com se tornar humano, imperfeito, e justamente por isso merecedor do perdão, da compaixão, de amparo, de auxílio.

Escrevi esse texto me olhando no espelho. Continuo imperfeito, graças a Deus (esse sim, perfeito)! Feliz assim. E você?

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Vim trazer verdades 27

As pessoas que mais sofreram costumam ser as mais compassivas.

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Doe-se

E no dia de hoje

Queira ser o motivo

Do sorriso de alguém

 

Afinal de contas

O que pode ser mais valioso

Do que ofertar o que só você tem?

quando-somos-bons

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Um estranho me sorriu

Hoje, um estranho me sorriu. Ele não me pediu nada. Não queria nada. Simplesmente sorriu porque o deixei passar na minha frente durante uma caminhada pelas ruas do bairro. Ele não sabia disso, mas eu precisava daquele sorriso. Eu também não sabia, mas senti algo muito positivo quando vi seu sorriso. Uma espécie de injeção de ânimo. Difícil de explicar.

E durante o resto de minha caminhada, segui sorrindo. Sorri para homens e mulheres. As mais novas eventualmente pensaram que minha simpatia era alguma espécie de cantada. As mais velhas, sorriam de volta. Os homens, não sabiam ao certo se eu era gay, maluco ou estava simplesmente feliz. De qualquer forma, o meu sorriso causou sensações nas pessoas, e era exatamente isso que eu queria.

Esperamos muito da vida. Compreensão, carinho e compaixão (entre outras coisas), mas muitas vezes nos esquecemos de dar justamente o que nos faz falta. Quanto me custou sorrir? Será que não fiz por alguma pessoa o mesmo que o estranho fez por mim?

Por via das dúvidas, vou continuar sorrindo. Espero que a vida também continue a sorrir para mim.

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