Fui comprar um queijo bem curado,
E o vendedor me disse: “Foram 6 anos.”
Retruquei assustado: “De cura?”
E ele me disse: “Não, de terapia”.

Fui comprar um queijo bem curado,
E o vendedor me disse: “Foram 6 anos.”
Retruquei assustado: “De cura?”
E ele me disse: “Não, de terapia”.

Para ti, minha filha,
Deixo de herança todas as minhas mazelas.
Que tua alma se consuma feito a minha,
No caldeirão de malfeitos no qual fui marinada e ungida,
Posto que sou sagrada.
Mas que tu entendas, minha filha:
Até os meus malfeitos são perfeitos –
Milimetricamente perfeitos –
Lustrosos e rebuscados ao ponto de mentes menos sagazes os defenderem.
…
Sou teu arquétipo e não admito que diferente de mim sejas.
Sou tua juíza e teu algoz –
Cassei tua voz! –
E projeto em ti tudo que sou,
Que nego,
Que invejo –
Sou pura inveja! –
Que odeio,
Que gostaria de ter sido,
Que nunca fui.
…
Agradeças, minha filha.
E quando pensares em ser diferente,
Bem no fundo da tua mente,
Ouvirás a minhas voz e não te atentarás
Que sou dona do teu inconsciente.
Esta é para ti a minha fiel herança:
Tornei-te esta insegura criança,
Que jamais será capaz de perceber,
Até mesmo quando adulta,
Que és apenas mais uma de minhas infinitas –
E ainda assim narcisicamente perfeitas –
Lambanças.

Por pura vaidade, não reconhece a perda.
Luta batalhas que não fazem mais sentido.
Chama a atenção para as suas causas irrelevantes –
Todas elas –
Irrelevantes para o mundo; o mundo que não é só dele.
Distorce, trama, difama, manipula,
Pois não tem a coragem de se olhar no espelho.
E ali, bem no meio da poça de sangue
Que se formou dos cortes que fez a si mesmo,
Prosta-se feito criança que espera a saída do escola.
Quer rever seu pai, sua mãe.
Quer que eles lhe digam que vai ficar tudo bem.
Quer se rever criança e poder ser criança.
Mas isso não é mais possível: a criança precisa morrer.
O bebê que ainda é precisa desfraldar.
Precisa sepultar partes suas em definitivo para ser.
Precisa viver o luto que é crescer.

– Ontem, foi muito engraçado!
– E por que você está me contando isso?
– Ué… Porque ontem foi muito engraçado.
– Faz algumas sessões que você aparece apenas para me contar as coisas que te acontecem. Coisas com as quais voce agora sabe como lidar. Você sabe como agir e reagir diante delas. Eu apenas te ouço. Tem sido assim.
– E o que isso significa?
– Significa que os 5, talvez 6 anos que você investiu na sua terapia chegaram ao fim. Você está pronto.
– Como assim? Falo com você toda a semana! Como é que eu…
– O nosso trabalho está concluído. Chegamos ao fim. Parabéns, Fabio! Agora é com você.
Terminei a sessão e passei alguns minutos olhando para o nada. Uma única lágrima desceu do meu rosto. Somente uma. Eu realmente estava e me sentia pronto.
Não sabia exatamente o que era um tratamento psicológico. Entrei no processo porque as frases de Freud, Jung e Lacan sempre me chamaram a atenção. Como resistir a elas?
Foi o melhor e maior investimento que já fiz em mim, na minha vida. Cheguei a ficar desempregado, mas não desisti da terapia nem por um segundo. Era algo que eu sabia que precisava, e hoje tive a notícia que um dia eu esperava ter: minha alta psicológica ou algo assim.
Olhei para o mundo e pensei no que tinha mudado. Ao olhar, percebi que via as mesmas coisas, mas que meu entendimento e minha percepção sobre elas tinha mudado ou evoluído muito.
Se eu mudei? Provavelmente, mas muito mais do que isso, eu me conheci. Minhas qualidades, meus defeitos, meus limites, minhas missões neste mundo.
Hoje, estou melhor comigo mesmo. Me aceito. Foco no que tenho que melhorar (muitas coisas). Me realizo nas partes do meu eu que já estão avançadas (outras muitas coisas). Percebo e sinto de maneira transparente as pessoas e as coisas ao meu redor. Me sinto mais seguro, mais confiante. Me sinto mais dono de mim.
09 de Janeiro de 2023 – O dia que eu renasci. Obrigado a todos e tudo que sabendo ou não conspiraram por este momento. Obrigado a minha psicóloga, pois sem ela eu não teria conseguido. Obrigado a mim mesmo por ter acreditado em mim. E, acima de tudo, obrigado a Deus por ter me colocado no caminho certo.
Estou muito, muito feliz. Que o mundo se acostume a meu eu assim. É assim que vai ser de agora em diante.
P.S.: Nada me impede de fazer umas sessões de reforço quando eu sentir que preciso. Agora, é só uma questão de escolha. 🙂

A palavra de hoje é ressignificar. E como todo mundo está falando desta palavra sem se dar ao trabalho de entender o processo como um todo, resolvi meter a minha colher neste angu cheio de caroços.
Vamos começar por entender o que não é ressignificar. Ressignificar não é olhar para algo que aconteceu na tua vida e dizer que tudo é culpa ou responsabilidade do outro. O nome disso é negação.
Não é possível ressignificar sem vencer a fase da negação. Ressignificar é assumir o teu protagonismo na tua história. É perceber que muita coisa do que te aconteceu tem que ver com teus atos e omissões. E somente diante deste protagonismo, que não pode ser fingido (precisa ser de fato entendido, aceito e internalizado), é que podemos ressignificar qualquer coisa que seja.
“Poxa! Fulano fez isso comigo!” – Quantos sinais claros de que Fulano iria fazer algo do tipo foram sumariamente ignorados? Quantas vezes você se calou quando deveria falar ou fazer algo? Quantas vezes tentou fazer pelo outro o que ao outro cabia fazer? Quantas vezes você ignorou a tua intuição, a tua voz interior? Quantas vezes você “fingiu que não viu” o que estava bem diante dos teus olhos?
Ninguém aprende lição alguma sem antes entender o papel que representou em determinada situação ou história. Ressignificar é tirar o melhor de algo negativo que aconteceu em tua vida, e isso passa obrigatoriamente pela aceitação não só de teus acertos, mas também dos teus erros. É assim que se cresce. É assim que a tal da maturidade chega. É também assim que chegam a paz e a felicidade.
P.S.: Ninguém melhor para te auxiliar nessa jornada do que um Psicólogo ou Psicanalista.

ESTE POST NÃO É UMA RESENHA!!!
Lucifer é uma série que fala sobre Lucifer (óbvio), mas como se ele fosse um humano vivendo entre nós. Não se enganem: ele continua sendo Lucifer, com todos os seus poderes, só que vivendo situações e sentimentos que humanos normais experimentam, tais como amor, culpa, raiva, saudade, etc. A cereja do bola é que a série foca muito em psicoterapia, ou seja, em como lidar com essas situações e sentimentos, o que a faz ficar ainda mais interessante. Inclusive, uma das principais personagens da série é uma psicóloga.
DISCLAIMER: Eu vou soltar alguns spoilers por aqui. Esteja ciente disso.
Eu gostei muito da série e gostei especialmente do final. Nela, Lucifer não é descrito como o mal em si, mas sim como aquele que recebeu um trabalho de Deus (sim, até Deus aparece na série), que é o de punir quem fez o mal. Qual a punição para as pessoas que vão parar no inferno? Viver eternamente o que é descrito como um “hell loop”, ou seja, a danação eterna de reviver e sentir o que fez a pessoa ir parar no inferno. O que as faz permanecer no dito “hell loop”? Culpa. Na prática, é como se não fosse Lucifer quem mantivesse as pessoas no inferno. Elas ficam por lá por conta da sua própria culpa e da sua própria incapacidade de lidar com o que fizeram. É um conceito interessante e é justamente aí que entra a questão da psicoterapia. Lucifer, inclusive, faz terapia!
Ao final da série, Lucifer transforma o inferno em um grande consultório psicoterápico, cujo objetivo é livrar as pessoas das suas culpas e fazê-las assumir as responsabilidades diante de seus próprios erros, tornando-as melhores. E assim procedendo, a série dá a entender que qualquer um poderia ir para o paraíso. Portanto, na série Lucifer se transforma em um anjo (bem… anjo ele já era – anjo caído) cuja missão é não mais apenas punir, mas resgatar todos os que estiverem verdadeiramente dispostos a ir para o paraíso.
Como eu disse, realmente é um conceito muito interessante, mas a vida me mostrou que há gente que nunca vai assumir a responsabilidade por seus atos. São sempre vítimas. Vítimas da inveja dos amigos, da incompreensão do companheiro, dos pais, dos chefes, dos filhos… Enfim, vítimas profissionais que acreditam que o universo inteiro conspira contra elas. Acreditam que são criaturas absolutamente perfeitas e divinais, grandiosas, merecedoras de todos os direitos e livres de todas as obrigações, e que eventualmente agem de forma maldosa ou violenta apenas com o objetivo de se protegerem do verdadeiro mal que a elas sempre tentam infligir. A Psicologia e a Psiquiatria conhecem bem de perto esses casos e o prognóstico não costuma ser bom.
Uma pessoa com uma mente assim não pensa ou sente como uma pessoa normal. É capaz de fazer terapia e criar uma persona* para ser analisada. Enfim… É uma pessoa capaz até de enganar os profissionais da área menos experientes ou que não tenham lidado de perto com manipuladores e mentirosos compulsivos. Vivem e são guiadas por um falso self**.
Obviamente, este texto não é uma resenha. A série tem seus altos e baixos (muito mais altos do que baixos). Eu gostei muito, muito mesmo. A solução proposta pela série, entretanto, na minha opinião, ainda vai deixar o inferno cheio de gente. Apesar de para Deus nada ser impossível, para mudar, antes de mais nada é preciso que a própria pessoa reconheça que há algo de errado, sendo que há pessoas que simplesmente não se enxergam.
P.S.: Tom Ellis é absolutamente brilhante no papel de Lucifer. Só a performance dele já vale assistir à série.
* Na psicologia analítica de Jung, (persona) é “uma espécie de máscara projetada, por um lado, para fazer uma impressão definitiva sobre os outros, e por outro, dissimular a verdadeira natureza do indivíduo”, a face social que o indivíduo apresenta ao mundo. – Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Persona_(psicologia)
** Verdadeiro self (também conhecido como self real, self autêntico , self original e vulnerável self ) e falso self (também conhecido como, self idealizado, self superficial e pseudo self ) são conceitos psicológicos, originalmente introduzidos na psicanálise em 1960 por Donald Winnicott . Winnicott usou o verdadeiro self para descrever um senso de si baseado na experiência espontânea autêntica e na sensação de estar vivo, tendo um self real. O falso self, por outro lado, Winnicott via como uma fachada defensiva, que, em casos extremos, poderia deixar seus detentores sem espontaneidade e se sentindo mortos e vazios, atrás de uma mera aparência de ser real. – Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Verdadeiro_self_e_falso_self
