Ninguém me entregou um molde.
Cheguei antes de ser,
e cada passo que dei
foi tijolo meu.
Ainda assim,
há trilhas que eu nunca tinha visto
e que meus pés reconhecem
logo no primeiro passo.
De onde vem isso
que sabe antes de mim?
Ninguém me ditou,
e mesmo assim chama.
Talvez eu não seja
nem o que encontro pronto
nem o que invento do nada.
Escolho, sim.
O peso é meu,
a conta é minha.
Mas escolho ouvindo
o que em mim
já sabia o caminho
antes de eu chegar.
E entre o que faço
e o que pede para ser,
eu vou sendo.
Sobre o poema
Jean-Paul Sartre e Carl Jung olharam para a mesma pergunta, quem somos, por caminhos opostos. Para Sartre, a existência precede a essência. Não há nada em nós esperando para ser revelado; somos o que fazemos, e por isso estamos condenados a ser livres, sem desculpas. Para Jung, existe em cada um de nós um Self, uma totalidade que pede para se realizar, e a vida é um processo de individuação, de nos tornarmos quem somos. Um diz que nos inventamos; o outro, que nos encontramos. O poema mora entre os dois: a escolha é minha, o peso também, mas talvez escolher bem seja escolher ouvindo.
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