Avatar de Desconhecido

Escolho ouvindo

Ninguém me entregou um molde.
Cheguei antes de ser,
e cada passo que dei
foi tijolo meu.

Ainda assim,
há trilhas que eu nunca tinha visto
e que meus pés reconhecem
logo no primeiro passo.

De onde vem isso
que sabe antes de mim?
Ninguém me ditou,
e mesmo assim chama.

Talvez eu não seja
nem o que encontro pronto
nem o que invento do nada.

Escolho, sim.
O peso é meu,
a conta é minha.

Mas escolho ouvindo
o que em mim
já sabia o caminho
antes de eu chegar.

E entre o que faço
e o que pede para ser,
eu vou sendo.


Sobre o poema

Jean-Paul Sartre e Carl Jung olharam para a mesma pergunta, quem somos, por caminhos opostos. Para Sartre, a existência precede a essência. Não há nada em nós esperando para ser revelado; somos o que fazemos, e por isso estamos condenados a ser livres, sem desculpas. Para Jung, existe em cada um de nós um Self, uma totalidade que pede para se realizar, e a vida é um processo de individuação, de nos tornarmos quem somos. Um diz que nos inventamos; o outro, que nos encontramos. O poema mora entre os dois: a escolha é minha, o peso também, mas talvez escolher bem seja escolher ouvindo.

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Mandala

Não me beijes hoje,

Não me abraces hoje,

Porque posso não estar aqui amanhã,

Porque posso não acordar de novo.

Faz tudo isso –

De novo, e de novo, e de novo,

Porque amanhã sei que me quererás,

Assim como sei que hei de te querer

De novo, e de novo, e de novo,

Feito hoje.

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Individuação

E agora, mãe,

Devo sorrir ou chorar?

Joguei todos os meus sonhos fora!

A senhora há de me cuidar?

E quando a senhora for só memória,

De mim a senhora há de lembrar?

Pois vivi a tua história,

E a minha nunca pude nem começar.