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Autopsicografia – por Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

pessoa

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Adiamento – por Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…

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Soneto de Fidelidade – por Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

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Morte e vida Severina – por João Cabral de Melo Neto

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

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Incenso fosse música – por Paulo Leminski

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

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Versos íntimos – por Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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No meio do caminho – por Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

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Sol de Outono

Que revela belezas esquecidas

Nos vãos da vida,

Nos trilhos da eterna viagem.

De onde vejo a paisagem

Pintada por sorrisos,

Borrada por lágrimas,

Mas ainda assim paisagem:

Quadros e retratos que sinto

Com os olhos da minha alma

Completamente escancarada.

Há beleza em tudo,

E hoje sei que as maiores belezas,

Das infinitas belezas do mundo,

Delicadamente me calam.

E quando estou mudo

É que mais ainda eu falo,

Pois ouço-me abissalmente,

Nas palavras que eu calo.

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Zimbro

Era para ser um encontro,

Três doses de gin,

Uma boa foda,

E nada mais.

Agora,

Com ela sempre me encontro,

Minha casa cheira a zimbro,

Das fodas já perdi as contas,

E eu quero é muito,

Muito mais.

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Traquinagens

Todos os dias que eu pedi que se fossem lentamente,

Não duraram mais do que um estalar de dedos.

Todos os dias que eu pedi que se fossem rapidamente,

Não duraram menos de que uma eternidade.

Pensei em usar todos os tipos instrumentos estatísticos,

Para facilitar a minha passagem,

Considerando valores, dispersões, pesos e frequências,

Ou mesmo fazer com dados uma modelagem,

Seguida de alguma regressão ou análise,

Mas o resultado era sempre mesmo:

24 horas por dia –

Todos os dias –

Dormindo ou acordando cedo ou tarde.

E depois de todo este esforço,

Cheguei a uma única conclusão:

Todo dia é uma certeza

Permeada de talvezes:

Algumas vezes sim,

Algumas vezes não,

E nada me cabe entender,

Porque por mais que a vida seja minha,

As traquinagens da vida minhas não são.