Me perdoes por não olhar-te Como se fosses o prato do dia.
A minha fome não é de comida: Eu preciso alimentar meu coração Dar de comer a minha alma E nada disso se dá Em uma só refeição.
Somos incompatíveis Não porque nos falte afinidade – Que mais do que há, diga-se de passagem – Mas porque o que tens para me oferecer É justamente o que não preciso E o que tenho para te oferecer Soa-te como completa falta de juízo.
Não é uma crítica – Que fique claro – São duas almas buscando um caminho Que vamos seguir como se entre nós Nada tivesse acontecido Até – quem sabe? – tudo acontecer de novo E de novo, e de novo, e de novo, e de novo…
Como de costume, sentou-se na mesa de seu bar favorito junto com seus amigos e olhou a seu redor para fazer uma espécie de reconhecimento de terreno. Bem a sua frente, uma duas ou três mesas depois, ele se deparou com uma mulher olhando fixamente em sua direção.
Seus olhos e seus cabelos compridos eram negros como uma noite sem lua e sem estrelas. Sua pele era branca como neve. Absurdamente bonita, tal como uma deusa nórdica. Parecia ter 30, 35 anos no máximo. Movia-se com delicadeza e classe. Falava com desenvoltura. Conversava com uma amiga, mas seus olhos estavam bem longe daquela conversa. Era algo tão contundente que era impossível de não ser notado. Os olhos dela o convidavam para chegar mais perto. Ele se sentia hipnotizado. Era praticamente impossível resistir, até porque ele não tinha intenção alguma de fugir daquela deliciosa e inesperada situação.
Era um bar cheio de pessoas bonitas e bem arrumadas, e justamente por isso ele resolveu fazer um “teste de sanidade” com um de seus amigos.
– Me faz um favor? Há uma mulher bem aqui na minha frente…
– Ela não para de olhar para você – respondeu o seu amigo, interrompendo-o.
Ele se deu conta, então, de que precisava fazer algo. Como ela estava acompanhada de uma amiga, sua aproximação tinha que ser estratégica. “Talvez quando a amiga dela for ao banheiro”, pensou. Sabia que não poderia vacilar ou hesitar. Precisava agir rapidamente. Era muito óbvio que os todos homens do bar haviam notado-a. Impossível não nota-la. Impossível.
E assim foi. Quando a amiga se levantou presumidamente para ir ao banheiro, ele imediatamente se levantou também. Sua missão era clara. Ele precisava se apresentar e entender o que estava acontecendo. Foi em direção à mesa e no momento em que iria falar com ela, a amiga retornou. “Esqueci meu celular!”, disse ela. Ele pensou em passar direto. Não deu tempo. Antes que ele pudesse desviar sua rota, a mulher o segurou pelo antebraço delicadamente e olhou bem no fundo de seus olhos.
– Não vai se apresentar? – o coração dele disparou. Por alguns instantes, sentiu como se tivesse esquecido o próprio nome.
– Seu nome é… – ela insistiu. E ele fez o que sabia fazer de melhor: sorriu de volta.
– Antes de eu dizer meu nome, me ajuda com uma coisa? É impressão minha ou você estava olhando na minha direção desde que cheguei aqui?
– Eu sei o seu nome. Não precisa me dizer – sua voz era doce e suave, talvez mais hipnótica ainda que seu olhar – E sim, eu estou olhando para você desde que chegou aqui. Você não se lembra de mim?
Ele reparou bem na fisionomia dela e não se lembrou de nada. “Como eu posso não me lembrar de uma mulher bonita como essa? Ela deve estar brincando comigo. Só pode!”
– Vou ser muito sincero… Eu não lembro. Tem certeza que sou eu? Não sou de me esquecer de uma fisionomia, ainda mais de uma mulher tão bonita quanto você…
– Eu entendo… Você estava acompanhado no dia – ela disse sorrindo.
– Que dia? – ele estava começando a ficar angustiado.
– Eu estava sentada em um bar com um amiga… Falando nisso, deixa eu te apresentar essa minha amiga.
A amiga dela estava voltando. Deu um oi meio sem graça e disse que estava indo embora. Chamou-a para ir embora com ela.
– Vou ficar – disse ela olhando fixamente nos olhos dele.
Elas se despediram e a conversa recomeçou.
– Eu estava sentada em um bar com uma amiga. Não era essa. Era outra. Isso faz uns 3 ou 4 anos, eu acho. Veio até a nossa mesa um morador de rua perguntar se tínhamos algo para dar para ele e fomos interrompidas pela dona do bar, que pediu para ele se afastar. Depois, ela veio até a nossa mesa e disse que não podia dar muita ideia para esse pessoal, porque eram ladrões disfarçados. E foi aí que você disse…
– “Não é porque ele é morador de rua que é ladrão”! E depois, ofereci algo para ele comer e disse para ele se sentar no bar.
– Então, você se lembra?
– É claro que eu lembro! Mas foi isso que fez você reparar em mim? – ele perguntou meio desconfiado.
– Sim! Exatamente isso. Havia um monte de gente no bar. Ninguém falou nada. Nem eu mesma. E você fez questão de se manifestar. Isso me deixou encantada… Achei uma atitude muito masculina… Forte! Coisa rara de se ver nesse dias – os olhos dela brilhavam mais do que nunca. Eram verdadeiros ímãs.
Ele pediu licença e foi até sua mesa pegar o seu copo. Voltou, sentou bem em frente a ela, e ambos embarcaram em uma conversa que durou horas e algumas Heineken. Ambos estavam bebendo com moderação. Ele tinha a sensação de que era o que deveria ser feito. Queria manter as coisas sob controle. Ao que tudo indicava, ela também.
Havia uma empatia, uma espécie de conexão bem fora do comum entre os dois. Descobriram que tinham amigos em comum, hábitos em comum, gostos em comum, até que foram surpreendidos pelo dono do bar dizendo que estavam fechando.
Ele olhou a sua volta e se deu conta que seus amigos tinham ido embora. Aliás, todos tinham ido embora. Só ele e ela estavam no bar. Mais nenhum cliente.
– Vamos continuar a conversa em outro lugar? – ele perguntou com assertividade. A resposta dela o surpreendeu.
– Para onde você quiser! – e enquanto falava, ela mexia em seus cabelos que exalavam um perfume maravilhoso. Ela estava completamente solta e entregue aquele momento e ele também.
– Há um bar perto daqui que fecha mais tarde. Dá para a gente ir andando. Me dá o braço. Andar de salto é complicado…
– Um cavalheiro… Viu como não dava para esquecer?
De braços dados, foram caminhando pela madrugada. Seus corpos agora estavam bem próximos e não havia mais uma mesa entre eles.
Andando ao lado dela, ele se sentia bem como há tempos não se sentia. A diferença de idade entre eles era de 10 anos, mas naquele momento não fazia a menor diferença. Eram apenas um casal feliz, cheio de uma intimidade, de uma cumplicidade que havia sido construída do zero em função de algo que ele mal se lembrava.
Os braços dados e o pele com pele estavam exacerbando a libido dos dois. Era fácil perceber isso pela maneira como eles se olhavam. Uma tensão sexual gigantesca estava sendo criada aos poucos, sem pressa.
Sentaram-se no outro bar e pediram mais uma Heineken, mas dessa vez ele se sentou ao lado dela. Elogiou o seu perfume, e ela ofereceu o seu pescoço sob a alegação de que seria mais fácil sentir o cheiro naquele local. Enquanto ele ia em direção ao pescoço dela, a sua boca interrompeu o seu caminho.
Não se beijaram. Explodiram. Perderam-se nos beijos. Esqueceram do mundo. Até que ela, completamente fora de si, o empurrou, olhou bem dentro de seus olhos e disse:
– Some comigo daqui agora!
– Vou chamar um Uber…
– Não! – ela interrompeu – Eu moro perto daqui. Vamos andando!
Ele obedeceu, obviamente. Foram os 200 metros mais longos da vida dos dois. No silêncio das ruas vazias durante a noite, eles paravam de 10 em 10 passos para mais beijos, mais carícias, mais mãos perdidas, mas sempre com destino certo. A situação beirava o desespero. Nenhum dos dois fazia questão alguma de disfarçar as suas intenções.
– Eu jurava que você estavam sem sutiã, mas de calcinha…
– Sim… Eu estava… Está na bolsa agora.
“Foi por isso que ela quis ir ao banheiro antes caminhar para casa”, pensou.
E aquela situação enlouquecedora continuou até a chegada ao prédio dela. E assim também foi na portaria do prédio. No sofá da portaria. No elevador. E quando a porta da sua casa se abriu, com um só gesto ela ficou nua na sua frente. A garganta dele ficou seca. Ficou extasiado com a perfeição do que via à meia luz. Definitivamente, uma deusa. Uma beleza única, rara, divinal.
– Vem! Eu sou tua!
E assim foi. Ele foi dela e ela foi dele por incontáveis horas. Amaram-se loucamente. Os primeiros raios de sol mostraram corpos arranhados, lanhados e um cheiro incrível de sexo, felicidade e realização no ar.
– Você é uma mulher incrível – disse olhando para o rosto dela, em tom de desabafo.
– Você fez de mim uma mulher incrível – respondeu enquanto aninhava-se no peito dele.
E ficaram ali, em silêncio. Dormiram exaustos por alguns instantes. Até que ele se levantou e começou a se preparar para ir embora. Ela fez um chá e ofereceu um café para ele. Trocaram mais algumas palavras antes da despedida.
– Então… Você vai me dar o seu telefone? – ele perguntou enquanto se encaminhava para a porta.
– Já está na inbox do seu Instagram… – o seu sorriso e a maneira como ela o olhava pareciam de uma menina peralta, daquelas bem arteiras.
– Você foi meu presente de aniversário, sabia?
– Era seu aniversário hoje? Eu não sabia… – suas mãos seguravam o queixo dele com carinho, com doçura.
– Não… É nessa semana. Presente adiantado! Me dá um abraço?
E se abraçaram longamente. E na mente dele, uma música que parecia representa-la: Lady Of The Snow, do Symphony X. Ele tinha certeza que a música era sobre ela.
No caminho até sua casa, acrescentou a seu repertório de crenças que não deveria mais fazer caridade ou se posicionar diante de qualquer injustiça “apenas” porque era o que Deus esperava dele, mas porque nunca seria capaz de prever quem se inspira ou mesmo repara em suas atitudes. Fazer o bem definitivamente era algo que compensava. E ele olhou para o céu e agradeceu a Deus.
Para uns
Beijos da vida
Para outros
Abraços da morte
A semeadura
Nunca abandona
Ou se esquece
De ninguém
E no tempo certo
Todo jardineiro
Que teve tempo
Mais do que suficiente
Para debulhar
Suas sementes
Receberá a sua paga
E vai chama-la de destino
Sem entender seus porquês
E menos ainda os seus poréns.
Eu quero fazer a diferença na tua vida, Mas não quero te mudar.
Quero ser o confidente, O amor, amante, o amigo, A válvula de escape diante do desastre iminente.
Quero que saibas que vou lavar a louça, Fazer compras, fazer faxina e cozinhar, Lavar roupa e passar, Porque por nós posso fazer Tudo que for necessário.
Vou trabalhar e trabalhar muito E ainda que o dinheiro não seja muito, Entrega e amor nunca irão faltar.
Quero andar de mãos dadas contigo Nas infindáveis caminhadas da vida, Onde o caminho tem mais importância que o destino.
Quero que tenhas orgulho de mim, Do homem que invariavelmente sou E da mulher que invariavelmente és quando estás comigo.
Mas de tudo que eu quero, Nada é mais forte do que o te querer E nesse querer eu realmente me defino: Te querer é o que eu sou.
E quero que sejamos bem assim normais, Casuais e sofisticadamente simples, E que nosso amor seja simplesmente A coisa mais importante que existe.
– Então, Senhor… Aqui estou eu, novamente, pedindo por… – Eu sei pelo que está pedindo. E está pedindo há tempos! – O Senhor fala comigo? – Sempre. O problema é que, na maioria das vezes, você não me escuta. – Como assim? – Você pediu, rezou, implorou, se ajoelhou… Eu vi isso tudo. Cada palavra. Cada gesto. Cada intenção. – E ainda assim eu não consegui o que queria… – Você acha que eu sou uma espécie de restaurante “self service”, onde você pode pegar o que quer e ignorar o que não lhe apetece? – Não é isso, Senhor… É que… – Eu sei o que você quer. Esqueceu que eu sou onisciente? Também sou onipresente e onipotente. Espero que se lembre de tudo que leu e ouviu a meu respeito… – Eu sei, eu sei, mas… – Mas você está achando que é Deus! E não… Deus sou eu! E sou seu único Deus! Seu salvador! Sei que você acredita nisso! – Sim, Senhor… Eu creio! – Então, pare de fingir que é Deus! – Como assim??? – Eu sei de tudo, meu filho. De tudo. E quero fazer umas perguntas… São perguntas retóricas, para deixar bem claro. Só que você está empacado feito uma mula e resolvi ajudar de forma mais direta. – Ajude-me, então, Senhor! Diga-me o que fazer para conseguir que… – Chega dessa ladainha! Eu disse que sei de tudo! Onde está a sua fé? – Está aqui, nessa nossa conversa… – E não está nas suas atitudes e nos seus pensamentos? Não está na sua maneira de olhar o futuro? Que fé é essa? – … – O que você gostaria de ter, de viver, vem do fundo do seu coração? – Sim, Senhor, e eu sei que o Senhor sabe disso. – Você fez tudo que estava a seu alcance para conseguir o que queria? – Fiz sim… Na verdade, acho que tentei fazer até o impossível… Talvez mais do que eu deveria ter feito… – Entendeu o problema? – Não… O Senhor poderia elaborar um pouco mais? – Eu estive contigo em TODA a sua jornada. Em cada passo, em todos os momentos. Eu conheço seu coração. Sei que há verdade e bondade no seu pedido, mas eu, como seu Deus, tenho o direito de nega-lo ou oferece-lo no momento em que EU julgar oportuno. Entendeu agora? Lembra do que falei sobre “self service”? – … – Eu ouvi conversas que você não ouviu! Eu vi coisas que você não viu! Eu conheço inimigos que você não conhece! Eu sei de coisas que você não sabe! Por que eu, como SEU PAI, daria a você, MEU FILHO, menos do que merece ou precisa? – Mas, Pai… Eu preciso disso! Eu mereço isso! – Você precisa de tudo que vier em meu nome e no tempo que EU achar adequado. Eu sou o senhor do seu destino. Eu sou a verdade e a vida. Há batalhas que só eu posso travar por você. Há portas que só eu posso abrir por você. E eu sei o que é melhor para você! Por que é tão difícil aceitar isso? – Mas… – Chega de mas! Chega! Você fez a sua parte e eu sei disso. Será que não percebe que é isso o que realmente importa? Chegou o momento de você descansar… – Morrer? – Vida eterna, se esqueceu? Mas nem é disso que estou falando. Você fez o plantio… É chegado o momento da colheita. – Quer dizer que eu vou conseguir que… – Não ponha palavras na minha boca! Eu disse que é chegado o momento da colheita. – … – Você não sabe o que é melhor para você. Eu sei! Descanse sabendo que seu Deus ouviu as suas preces! Mas eu não vou te dar o que você me pediu… Eu vou dar MUITO MAIS do que me pediu! Só espero que esteja pronto para receber o que vou dar… – Como assim? – Estou preparando você há tempos! Não se deu conta disso? Que tipo de pai deixa seu filho sofrer se não for por um bom motivo? – Me preparar? – Como você pode reconhecer a luz se nunca viu a escuridão? Eu quero que, no futuro, lembre-se dos seus dias de luta com muito orgulho, porque não há NADA que aconteça em sua vida que não esteja nos MEUS planos. Você é uma OBRA DE DEUS! Levante a sua cabeça! Olhe para o futuro! Não olhe para o passado que não é para lá que você vai! O que tiver que ser, será! – Não adianta discutir com o Senhor, né? – Não. – Pois bem… Mas será que… – CHEGA!!! – Ok. Que assim seja! – Até que enfim!
Mesmo não sabendo quem eu era Deixei de sê-lo E não mais sendo Acabei sendo o que eu não era Mas que de fato eu sou – Sempre fui
As respostas só surgiram Quando desisti de buscar por elas E assim acabei descobrindo que as perguntas Sequer eram para ser aquelas!
E quando chegou a hora – Sem pressa ou demora – Perguntas e respostas se esvaíram E restou apenas o aqui O agora O afinal
Tanto tempo me perdi Nos excessos Do passado Do futuro Que eu não me via bem ali Ao alcance de mim Embora cercado por muros Que eu mesmo ergui!
E disso tudo fica a lição Da vida que hoje vivo Por conta da que antes não vivi: Em dado momento – Meu e somente meu momento – Eu fiz uma escolha E dela não me arrependi Eu escolhi – E todos os dias escolho – O eu que eu conheci.