E o dia amanheceu com gotas de orvalho
(lembranças, momentos, palavras, gostos e cheiros)
Nas pétalas da tua flor.

Resolvi chamar de amor o que era pura dor
E que minhas poesias inspirava.
Talvez mais algumas palavras
Mais estrofes, mais versos
Mais telefonemas e mensagens
Mais angústia
Mais lágrimas
Mais humilhações
Mais descaso
Mais falta de respeito
Mais indignidade.
Resolvi chamar isso de amor
E hoje entendo o porquê:
Falta de amor próprio
Responsabilidade minha
E de mais ninguém.
Faltou-me coragem
Para deixar ir embora de vez
A dor que não me deixava.
E no final das contas
“Amar é quase uma dor”
Apenas quando não é amor:
É apenas dor romantizada.
O amor de fato é flor
E como toda flor
Faz valer a jornada.

Será que eu não entendi direito
As faíscas em nossos olhos
As mãos dadas
Os nossos suspiros
As nossas conversas e delírios
Os nossos beijos e abraços
O nosso gozo vitorioso
As batidas de um só coração –
Apenas um só coração –
Que pulsava por nós dois?
Será que eu não entendi direito
Tudo que não precisava de explicação?
Era amor ou não?
Se não era amor
O que era?
Era, era amor!
Era amor
E sinto a dor
Da morte
Do que era
Era amor
E hoje é flor
No jazigo
Que nos desterra.

Não há nada que você possa dizer ou fazer que seja capaz de me fazer sentir pior ou melhor do que me sinto.
E repetindo essa espécie de mantra, no dia a dia eu passei a vivencia-lo, iniciando meu processo de cura.
Não precisei criar narrativas fantasiosas onde você era a pior criatura do mundo, e eu o mocinho de um filme de faroeste ou de terror. Não precisei te culpar por nada. Não foi tudo em comum acordo? Não precisei difamar você ou mesmo mentir para justificar o que vivemos. Não precisei desconstruir ou destruir você. Não precisei pensar em algum tipo de vingança ou atitude intempestiva de maior impacto. Para quê? Por quê? Em nome do quê? Não precisei me esquecer de nada que vivemos, de onde fomos, e muito menos de tudo que sentimos. – Sim! Juntos, os dois! – Não precisei dizer que nunca te amei ou que você nunca me amou, ou mesmo dizer que fui usado, manipulado. Não precisei envolver terceiros, fornecendo a eles informações privilegiadas que obtive de você por conta da nossa intimidade e da confiança que você depositava em mim. Não precisei falar mal da sua família, da sua casa, das suas coisas. Não precisei fingir que te esqueci. Não precisei sequer deixar de te amar para seguir em frente. Eu posso seguir em frente e continuar te amando. E posso amar de novo, e de novo, e de novo, e de novo… Posso recomeçar quantas vezes forem necessárias e isso não é uma escolha. Isso faz parte de quem eu sou.
Há sempre pelo menos uma saída de uma rotatória, nem que seja a mesma via que um dia já serviu de entrada. E eu entrei na sua vida pela porta da frente. Obrigatoriamente, portanto, essa saída passa pela minha integridade e pela minha capacidade de honrar e respeitar o meu passado, aceitando as coisas como elas realmente são, sem mágoas ou ressentimentos. Vida que segue.
O nosso amor foi e é como uma flor, e toda flor tem seus espinhos. E nem por isso, ou justamente por isso, é que nunca deixará de ser flor.

Uma vez, antes de sumir no mundo, ela deu uma flor para minha mãe. Uma daquelas que vem em um vaso pequeno. Uma violeta. Ela quis agradecer a minha mãe por tê-la recebido em sua casa. A flor era cor de rosa, talvez arroxeada. Algo assim. Homens não costumam ser bons com cores.
Todo dia eu via minha mãe conversar com a tal flor. Nada de anormal. Ela sempre dava bom dia para as plantas da casa. Só que no caso dessa flor, eu sentia que era diferente. Como tinha sido um presente, a sensação que eu tinha era de que havia algo de especial entre as duas. Não sei explicar ao certo o que, mas sei que havia.
Confesso que eu passava ao lado da tal flor e pensava em joga-la no lixo. Só que quando eu chegava perto dela, eu simplesmente não tinha coragem. Não seria justo fazer nada contra ela, até porque eu sabia que ela havia sido dada de coração. Eu tinha certeza disso.
E os dias se passaram… As semanas se passaram… Os meses se passaram… Talvez uns 5 ou 6 meses. Eu não fazia ideia que uma flor dessas poderia durar tanto! E eu fui me acostumando… Não dava bom dia para ela, mas era uma lembrança que me fazia sorrir.
Um dia, porém, ao chegar perto de minha mãe, percebi que ela estava entristecida. Olhei para o vasinho e percebi que a flor estava seca. E eu perguntei o óbvio:
– O que houve com ela? Morreu?
E minha mãe me olhou nos olhos, colocou a mão no meu peito como só uma mãe sabe colocar, e me disse:
– Mas ela está viva aqui, bem dentro do seu coração.
E nesse dia, depois de tantos anos, eu finalmente descobri que meu coração era e é um jardim. E minhas lágrimas o regaram. Lágrimas represadas. Simplesmente lágrimas.
Depois disso, vi muitas flores. Há flores aqui e ali. É só saber procurar. Mas daquela flor, que sequer era minha, eu nunca mais me esqueci, e sei que, de alguma forma, ela ainda vive dentro de mim.

Chuva lá fora…
E eu te querendo
Desaguando em mim
Chove, chuva…
Chove… Chove…
Mas eu sei que o que te molha
É a flor do meu jardim.

Bem na flor eu vi
Um beija-flor
Ele a acaricia
Língua em frisson
Fervor
Ela não reclama
Ele volta sempre
Ela o espera
Receptiva
Sorridente
Cheirosa
Amarela ou rosa
Todas as cores
Pra lá de graciosa
Relação sincera
Do beija-flor com a flor
Existem porque se completam
Diga instinto – eu digo amor
Até porque ele volta sempre
Entre tantas
Vôo certeiro
Para a mesma flor.

Estão cortando uma árvore em frente a minha casa
Planejamento urbano? Futuro?
Frondosa, com profundas raízes
Indefesa diante do “progresso”
Não é bem isso que fazemos com nossos idosos
Quando eles se tornam um empecilho?
Fonte inesgotável de sabedoria
Os afastamos de nossas vidas
Dói menos assim, não é mesmo?
Aos poucos, nosso coração se esquece
De quem nos deu sombra, de quem nos fez mingau
De quem nos cuidou e protegeu com sua própria vida
Eu sou essa árvore
Eu sou esses idosos
E se algum dia eu for parar em um asilo
(Sente-se melhor se eu chamar de Casa de Repouso?)
Vou ficar tranquilo
Doente ou sadio
Lúcido ou não
Estarei a poucos passos de encontrar a Deus
E é por isso que eu sempre digo:
Nasci de cabeça para baixo
Minhas raízes não estão na terra
Estão e crescem em direção ao céu.
