Avatar de Desconhecido

Incenso fosse música – por Paulo Leminski

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

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Amavisse – por Hilda Hilst

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

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Versos íntimos – por Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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Retrato – por Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

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No meio do caminho – por Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

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Relógio – por Mário Quintana

O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.

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Zimbro

Era para ser um encontro,

Três doses de gin,

Uma boa foda,

E nada mais.

Agora,

Com ela sempre me encontro,

Minha casa cheira a zimbro,

Das fodas já perdi as contas,

E eu quero é muito,

Muito mais.

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Traquinagens

Todos os dias que eu pedi que se fossem lentamente,

Não duraram mais do que um estalar de dedos.

Todos os dias que eu pedi que se fossem rapidamente,

Não duraram menos de que uma eternidade.

Pensei em usar todos os tipos instrumentos estatísticos,

Para facilitar a minha passagem,

Considerando valores, dispersões, pesos e frequências,

Ou mesmo fazer com dados uma modelagem,

Seguida de alguma regressão ou análise,

Mas o resultado era sempre mesmo:

24 horas por dia –

Todos os dias –

Dormindo ou acordando cedo ou tarde.

E depois de todo este esforço,

Cheguei a uma única conclusão:

Todo dia é uma certeza

Permeada de talvezes:

Algumas vezes sim,

Algumas vezes não,

E nada me cabe entender,

Porque por mais que a vida seja minha,

As traquinagens da vida minhas não são.

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Seis meses

Seis meses de educação,

Cordialidade,

Reciprocidade,

Fidelidade,

Tranquilidade,

Carinho,

Amor,

Paz,

Beijos e abraços,

Compreensão,

Coragem,

Valor.

Há seis meses que colocam a vida no prumo.

Há seis meses que valem uma vida inteira.

E há o cada dia destes seis meses,

Que sequer parecem dias passados,

De tão bons que se mostraram,

De tão bons que são presentes.

Há seis meses eu não era,

Mas há seis meses eu verdadeiramente sou.

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Como será?

Como será se você ficar desempregado?

Como será se você estiver triste?

Como será se você ficar doente?

Como será se você precisar de ajuda?

Como será se você precisar ser ouvido?

Como será quando você inexoravelmente envelhecer?

Como será?

E talvez os entraves da vida –

Permitidos por Deus –

Sejam apenas para mostrar

Quem pode até estar,

Mas nunca esteve de fato contigo.