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Anatomia

Seja

Seja minha

Quero escrever

Um novo tratado sobre

Anatomia

 

Por eu não ser especialista

Espero que não desistas

Talvez leve tempo

Mais tempo do que o necessário

Infinitas eternidades – talvez

Já imaginou o trabalho

Só para parir tal glossário?

 

Até porque sou detalhista…

Não quero só mais um livro

Quero algo digno de um artista!

Dos pés e a teus pés no início

E do fim voltando ao princípio

Em um ofício inevitavelmente sem fim

 

Então

Dispo-te sereno

A esse trabalho me condeno

Quero detalhar os detalhes

Sentir e tocar teus entalhes

Curvas e mais curvas…

Estradas, avenidas…

Vida que se faz presente

Presente que faz parte da vida

 

Ah…

A Anatomia!

Pela ciência

E em nome da ciência

Todos os dias

E como cientista

Aviso-te:

És a minha maior descoberta e conquista!

 

Não, não sou um vigarista

Sou só o toque

O choque

O princípio

Sem fim

Teu Sul

Teu Norte

Sou a tua sorte

E muito além da morte

És a minha vida.

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Desavergonhado e otimista

Eu sou um desavergonhado

Que ama incondicionalmente

E que genuinamente se preocupa

Com a dor que o outro sente

E que até mesmo esquece sua própria dor

Para cuidar da dor de quem se mostra indiferente

 

Eu sou um desavergonhado

Que escreve poesias para quem não as lê

Que faz do papel uma espécie de confessionário

Tornando-se óbvio, simples de se ver

E que ainda assim se torna culpado

Por pedir ajuda para ao outro entender

 

Eu sou um desavergonhado

Que aceita que confundam a minha bondade

Com algum tipo de fraqueza

E que quer para os outros a felicidade

Ainda que seja retribuído com aspereza

O meu coração faminto e dorido de saudade

 

Mas acima de tudo sou um otimista

Que acredita que o amor com amor se conquista

Que dá mesmo sem nada receber

E que se regozija no plantio altruísta

Na certeza de que colheita maior não há

Do que ser do amor um eterno protagonista.

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Apertem os cintos!

E a comissária de bordo me disse:

“Teríamos que despachar como bagagem

O teu coração

Não cabe nada daquele tamanho

Dentro deste avião.”

 

Ao que respondi:

“Ele é grande – fato

Mas não precisaria sequer embarcar

Ele tem asas, vontade própria e já se foi

Só me pediu para o acompanhar

Acima de tudo, entretanto e contudo

Eu vou com tudo

Pois sem ele

Nem vida em mim há.”

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Chuva-me!

Se é para chover

Que chova-se!

Que minha alma seja lavada

E que o frescor da minha face molhada

Abrande minhas salgadas chagas trovoadas

E que nas curvas dessa infinita e eterna estrada

Entre uma ou outra eventual derrapada

Eu fuja dos atalhos que me conduzem ao nada.

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Paradoxilingus

Que jorre o néctar que de ti

Em minha face mais do que aceito

E que os beijos sejam sempre de “até mais”

E que o dilacerante e paradoxal fim destes

Seja eterno e inexorável recomeço.

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Feito de sonhos

Desde então

Visitas amiúde meus sonhos

E por isso, de ontem para hoje

Não me deixei dormir

 

Mas não é que acordado te vi?

Logo, logo, logo aqui…

Nos meus braços

Venceu-me o cansaço

Sonhei acordado

Coisa de homem apaixonado

Ou seria de homem alucinado?

 

Melhor eu tentar dormir.

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Lentamente…

Lentamente…

 

Arrasto-me

Afasto-me

Parece que não saio do lugar

Mas não

De fato estou a me movimentar

É que te acostumaste a me ver parado

Incondicionalmente a teu lado

Mas eu sou brilho

Luz e movimento

Preciso de motivos para ficar

 

Lentamente…

O sol ruma ao poente

Para não mais te iluminar.

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Noite

Noite misteriosa

Sem brilho

Jocosa

Que chuta cachorro morto

Até não haver mais corpo

Para um funeral digno

 

Noite traiçoeira

Sinuosa serpente

Sorrateira

Que inocula seu veneno

Que deixa o corpo fervendo

E parte! Sem se despedir

 

Noite chuvosa

Propositalmente onírica

Lírica

Jorrando em borbotões

Tira o ar de meus pulmões

E me afoga em minha teimosia

 

Noite inesquecível

Deliciosa gastura

Loucura!

Mas se tiver que ser

Render-se-á o alvorecer

A esta carestia mundana.

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Aperitivo

Há mel em seus lábios

Teu corpo inteiro em chamas

Cheiros e gostos incomuns

Especiarias que em mim derramas

 

De onde vem esta loucura

Que nos fulmina na cama

Só para ressurgir instantes depois

Ainda mais colossal e insana?

 

Acho melhor nem tentar entender

Já se tornou repetitivo

O nosso agora ao futuro pertence

Somos eterno aperitivo

 

E se tu tentares resistir

Deixo-te logo este aviso

Sim, sempre fazemos amor

Mas fodo teu corpo, tua alma e teu juízo.

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Nem mesmo um telefonema

Acho que um dia vai ser assim:

Eu não ligo para você

Você não liga para mim

 

Nada disso fará sentido

Se todo dia acordarmos juntos.

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