Avatar de Desconhecido

Bem curado

Fui comprar um queijo bem curado,

E o vendedor me disse: “Foram 6 anos.”

Retruquei assustado: “De cura?”

E ele me disse: “Não, de terapia”.

Avatar de Desconhecido

Testamento

Para ti, minha filha,

Deixo de herança todas as minhas mazelas.

Que tua alma se consuma feito a minha,

No caldeirão de malfeitos no qual fui marinada e ungida,

Posto que sou sagrada.

Mas que tu entendas, minha filha:

Até os meus malfeitos são perfeitos –

Milimetricamente perfeitos –

Lustrosos e rebuscados ao ponto de mentes menos sagazes os defenderem.

Sou teu arquétipo e não admito que diferente de mim sejas.

Sou tua juíza e teu algoz –

Cassei tua voz! –

E projeto em ti tudo que sou,

Que nego,

Que invejo –

Sou pura inveja! –

Que odeio,

Que gostaria de ter sido,

Que nunca fui.

Agradeças, minha filha.

E quando pensares em ser diferente,

Bem no fundo da tua mente,

Ouvirás a minhas voz e não te atentarás

Que sou dona do teu inconsciente.

Esta é para ti a minha fiel herança:

Tornei-te esta insegura criança,

Que jamais será capaz de perceber,

Até mesmo quando adulta,

Que és apenas mais uma de minhas infinitas –

E ainda assim narcisicamente perfeitas –

Lambanças.

Avatar de Desconhecido

Nos domingos

Nos domingos, as cores são outras.

O verde é da Heineken e da salada com folhas para lá de frescas (com tomate cereja, por favor).

O amarelo é da batata frita, da farofa.

O branco é do arroz (que eu não como, mas que não pode faltar).

O rosa é da carne mal passada, quase ao ponto (ao ponto de alguém reclamar que está “crua”).

O preto é do carvão, que aquece e acolhe, que traz vida.

Mas o vermelho… Este é de paixão, do amor, do desejo, dos sonhos e dos beijos, da vida, do hoje, do ontem e do amanhã.

Um brinde aos domingos!

Nos domingos, além da carne, o fogo a alma queima.

Avatar de Desconhecido

P.S. 60

E essa frase mexeu muito comigo.

Avatar de Desconhecido

Abraço

Nada escapa do meu abraço,

Que acolhe antes e pergunta depois.

Porque eu aprendi na vida

Que o abraço precisa ser casa,

Precisa ser lar, feijão com arroz.

Nada escapa do meu abraço,

Porque eu já precisei ser abraçado

E não fui.

Avatar de Desconhecido

Dia dos Namorados – 2025

Que seja verdadeiro:

O amor distante.

O amor presente.

O amor último.

O amor primeiro.

O amor em todas as partes.

O amor por inteiro.

O amor que existe e independente das circunstâncias.

O amor que vive e sobrevive em todas as instâncias.

O amor que é resiliente e paciente.

Que ora é silêncio, e ora é saliente.

Amor para todas os gostos e estações,

Sempre com o dulçor e o frescor da primavera.

Avatar de Desconhecido

Folie à deux

Conta-me e eu te conto.

Distorça!

Manipule!

Incite!

Difame!

Distorço!

Manipulo!

Incito!

Difamo!

Conta-me e eu te conto.

Horas ao telefone,

Repetimos seu nome,

Nada foi em vão,

Roubamos seu coração,

Sua alma em nossas mãos,

E a crucificamos em praça pública.

Conta-me e eu te conto.

Avatar de Desconhecido

Crescer

Por pura vaidade, não reconhece a perda.

Luta batalhas que não fazem mais sentido.

Chama a atenção para as suas causas irrelevantes –

Todas elas –

Irrelevantes para o mundo; o mundo que não é só dele.

Distorce, trama, difama, manipula,

Pois não tem a coragem de se olhar no espelho.

E ali, bem no meio da poça de sangue

Que se formou dos cortes que fez a si mesmo,

Prosta-se feito criança que espera a saída do escola.

Quer rever seu pai, sua mãe.

Quer que eles lhe digam que vai ficar tudo bem.

Quer se rever criança e poder ser criança.

Mas isso não é mais possível: a criança precisa morrer.

O bebê que ainda é precisa desfraldar.

Precisa sepultar partes suas em definitivo para ser.

Precisa viver o luto que é crescer.

Avatar de Desconhecido

Vida regressiva

Tudo parece estar sob controle,

Até que não mais está.

Nos tique-taque da vida,

Contagens regressivas,

Inícios e fins,

Cicatrizes e feridas,

Coisas que passamos a ter,

Coisas que passamos a não ter mais.

O agora se transforma,

E dependendo da hora,

Não há mais o agora para voltar.

É viver, então, só de memórias,

Com infinitas lamúrias para recitar.

Avatar de Desconhecido

Inocência

A culpa é dele, digo eu, juiz absoluto da verdade.

Não há possível falha minha, e se há, não posso suportá-la.

Aceitar a falha seria aceitar que não sou tudo que imagino ser, e um vazio absoluto tomaria conta de mim.

E assim sendo, precisaria me reconhecer para de fato me conhecer, para aceitar que sou protagonista da minha própria história, da minha própria vida.

Mas prefiro continuar encenando a peça onde o erro mora do lado de fora, onde eu sou injustiçado, sempre injustiçado, sempre vítima. Onde o diabo são os outros.

A minha fraqueza não se esconde de olhos mais atentos, e este é o meu maior medo: ser descoberto e me ver obrigado a confessar para mim mesmo que não sou inocente.