Fui comprar um queijo bem curado,
E o vendedor me disse: “Foram 6 anos.”
Retruquei assustado: “De cura?”
E ele me disse: “Não, de terapia”.

Fui comprar um queijo bem curado,
E o vendedor me disse: “Foram 6 anos.”
Retruquei assustado: “De cura?”
E ele me disse: “Não, de terapia”.

Para ti, minha filha,
Deixo de herança todas as minhas mazelas.
Que tua alma se consuma feito a minha,
No caldeirão de malfeitos no qual fui marinada e ungida,
Posto que sou sagrada.
Mas que tu entendas, minha filha:
Até os meus malfeitos são perfeitos –
Milimetricamente perfeitos –
Lustrosos e rebuscados ao ponto de mentes menos sagazes os defenderem.
…
Sou teu arquétipo e não admito que diferente de mim sejas.
Sou tua juíza e teu algoz –
Cassei tua voz! –
E projeto em ti tudo que sou,
Que nego,
Que invejo –
Sou pura inveja! –
Que odeio,
Que gostaria de ter sido,
Que nunca fui.
…
Agradeças, minha filha.
E quando pensares em ser diferente,
Bem no fundo da tua mente,
Ouvirás a minhas voz e não te atentarás
Que sou dona do teu inconsciente.
Esta é para ti a minha fiel herança:
Tornei-te esta insegura criança,
Que jamais será capaz de perceber,
Até mesmo quando adulta,
Que és apenas mais uma de minhas infinitas –
E ainda assim narcisicamente perfeitas –
Lambanças.

Nos domingos, as cores são outras.
O verde é da Heineken e da salada com folhas para lá de frescas (com tomate cereja, por favor).
O amarelo é da batata frita, da farofa.
O branco é do arroz (que eu não como, mas que não pode faltar).
O rosa é da carne mal passada, quase ao ponto (ao ponto de alguém reclamar que está “crua”).
O preto é do carvão, que aquece e acolhe, que traz vida.
Mas o vermelho… Este é de paixão, do amor, do desejo, dos sonhos e dos beijos, da vida, do hoje, do ontem e do amanhã.
Um brinde aos domingos!
Nos domingos, além da carne, o fogo a alma queima.

E essa frase mexeu muito comigo.

Nada escapa do meu abraço,
Que acolhe antes e pergunta depois.
Porque eu aprendi na vida
Que o abraço precisa ser casa,
Precisa ser lar, feijão com arroz.
Nada escapa do meu abraço,
Porque eu já precisei ser abraçado
E não fui.

Que seja verdadeiro:
O amor distante.
O amor presente.
O amor último.
O amor primeiro.
O amor em todas as partes.
O amor por inteiro.
…
O amor que existe e independente das circunstâncias.
O amor que vive e sobrevive em todas as instâncias.
…
O amor que é resiliente e paciente.
Que ora é silêncio, e ora é saliente.
Amor para todas os gostos e estações,
Sempre com o dulçor e o frescor da primavera.

Conta-me e eu te conto.
Distorça!
Manipule!
Incite!
Difame!
Distorço!
Manipulo!
Incito!
Difamo!
Conta-me e eu te conto.
Horas ao telefone,
Repetimos seu nome,
Nada foi em vão,
Roubamos seu coração,
Sua alma em nossas mãos,
E a crucificamos em praça pública.
Conta-me e eu te conto.

Por pura vaidade, não reconhece a perda.
Luta batalhas que não fazem mais sentido.
Chama a atenção para as suas causas irrelevantes –
Todas elas –
Irrelevantes para o mundo; o mundo que não é só dele.
Distorce, trama, difama, manipula,
Pois não tem a coragem de se olhar no espelho.
E ali, bem no meio da poça de sangue
Que se formou dos cortes que fez a si mesmo,
Prosta-se feito criança que espera a saída do escola.
Quer rever seu pai, sua mãe.
Quer que eles lhe digam que vai ficar tudo bem.
Quer se rever criança e poder ser criança.
Mas isso não é mais possível: a criança precisa morrer.
O bebê que ainda é precisa desfraldar.
Precisa sepultar partes suas em definitivo para ser.
Precisa viver o luto que é crescer.

Tudo parece estar sob controle,
Até que não mais está.
…
Nos tique-taque da vida,
Contagens regressivas,
Inícios e fins,
Cicatrizes e feridas,
Coisas que passamos a ter,
Coisas que passamos a não ter mais.
…
O agora se transforma,
E dependendo da hora,
Não há mais o agora para voltar.
É viver, então, só de memórias,
Com infinitas lamúrias para recitar.

A culpa é dele, digo eu, juiz absoluto da verdade.
Não há possível falha minha, e se há, não posso suportá-la.
Aceitar a falha seria aceitar que não sou tudo que imagino ser, e um vazio absoluto tomaria conta de mim.
E assim sendo, precisaria me reconhecer para de fato me conhecer, para aceitar que sou protagonista da minha própria história, da minha própria vida.
Mas prefiro continuar encenando a peça onde o erro mora do lado de fora, onde eu sou injustiçado, sempre injustiçado, sempre vítima. Onde o diabo são os outros.
A minha fraqueza não se esconde de olhos mais atentos, e este é o meu maior medo: ser descoberto e me ver obrigado a confessar para mim mesmo que não sou inocente.
